sábado, 13 de abril de 2013

Se a saudade vier, diz que eu não tô



Fico meio transtornada quando penso nessa coisa complexa a que chamam saudade. Ás vezes pareço aquela garotinha de uns anos atrás que ficava na casa dos avós enquanto os pais iam viajar e se sentia tão vulnerável, tão perdida que ia pra dentro de um quarto chorar baixinho. Nessa época tudo parece grande. O salto alto da nossa mãe, a estante de livros da sala, a escada pra subir até o último andar do apartamento, a saudade, que às vezes nem precisamos conhecer a palavra para saber o que ela significa... Nos sentimos tão pequenos nesse mundo infinito o qual parece que nunca cresceremos pra ver lá de cima. E cá entre nós, tem horas que dá vontade de voltar pra aquela esquina mais antiga do passado, onde papai cobria nossos olhos com a mão na hora daquela cena quente da novela das oito.
Mas então a gente cresce. E é um perigo se você ainda tem seus olhos vendados por uma mão invisível que nem é mais a do seu pai. O mundo vai mostrando sua cara feia à medida que o tempo passa, as dificuldades aparecem, e não se enxerga mais o Maranhão como um lugarzinho em forma de coração no Brasil (meu primo me ensinou a identificar meu estado assim, nunca me esqueço) e ele passa a ser uma terra longínqua onde você sonha em voltar algum dia igual poeta no exílio. Agora ele não é apenas formato de coração, bem como está no seu, porque quando se cresce os significados das coisas mudam. E ah, lembra do cubinho mágico da infância, aquele que você morria de ódio porque não conseguia ajeitar as cores no lugar certo? Quando se cresce, ele não apenas é um cubinho mágico, mas pode ser comparado com a vida, você arruma de um lado, bagunça o outro.
Em suma, há dias em que você não dá a mínima, até gosta de estar “exilado”, outros, a vontade é de jogar aquela montanha de livros a anotações no chão gritar “Dane-se!” e ir buscar consolo assistindo O rei leão entre sua mãe e seu pai. Lá em casa.
O que me intriga mais é o jeito que a as coisas têm de estarem sempre se renovando, prioridades novas aparecem. O que leva alguém a deixar de chorar no quarto baixinho por causa da falta dos pais e chorar porque sente falta de alguém mais (no meu caso choro porque vou mal em toda prova de exatas até hoje, certo?) e depois algo fantástico acontece e você passa a achar tudo bobagem, inclusive os dramas infantis de até bem pouco tempo atrás. Tem coisas que são divertidíssimas de relembrar, mas dependendo da gravidade, você sente é vergonha. Parece que nem sou a mesma pessoa e (graças a Deus) nem me pareço com ela. Gosto de lembrar dessa pessoa como alguém que contribuiu para o meu atual desenvolvimento que resulta um equilíbrio, onde eu hoje sou F e meu eu interior é Fat.
Nerdizisses fajutas a parte, o que anda me incomodando pra valer é que ainda existem pessoas que não encontraram seu equilíbrio. Pessoas de bem daqui, pertinho de mim. Explicaria meu desconforto a frase brega “longe dos olhos longe do coração”, mas eu prefiro a ideia de que que é possível amar muito alguém, mas o tamanho do seu amor por uma pessoa nunca será páreo para o tamanho da saudade que você vai sentir dela. Tá, eu tirei esse trecho de O Teorema de Katherine que foi mais um livro que eu comecei a ler e não terminei pela falta de tempo. O que eu quero dizer é que essa foi mais uma frase que ficou na minha cabeça e eu acabei decorando, como sempre faço, é meio que mecânico (queria que fosse desse jeito com as fórmulas de física também), assim como o próprio sentimento de estar nostálgico ao mesmo que se está satisfeito longe de todo aquele monte de passado.
E o alívio? Nada como a distância para nos injetar uma boa dose de liberdade na veia. Parece papo furado dizer que vai pra longe, começar uma vida nova e iniciar do zero, mas não é. Quando eu penso que poderia sentir falta, eu lembro o quanto eu perdi por me importar com coisas pequenas que nada me acrescentaram, porque sim, há uma imensidão dessas coisas pequenas em que não se pode evitar e tudo que se pode fazer é conviver com elas ou então, você pode não dar importância a essas pequenezas e tocar o barco.
Confesso que o que mais doeu nesse processo todo de metamorfose ambulante – Raul me entenderia – foi a minha trágica, não menos necessária, perda de toda a pasta de Meus Documentos do meu falecido notebook. Fiquei uma semana cantando meu computador apagou minha memória, meus textos da madrugada, tudo que eu já salvei e o tanto que eu vou salvar das conversas sem pressa das mais bonitas mentiras... Porque foi como se uns 5 anos da minha vida fossem, literalmente, apagados. Estou preferindo pensar que isso foi um sinal para eu realmente deixar pra lá, que já estava na hora mesmo, porque esse foi o jeito que o destino achou de mandar pra fogueira todos meus registros de coisas que não existem mais. E todos deveriam achar um jeito de mandar pra fogueira o que não serve mais também, é algo mais como se livrar do que propriamente perder.


Então a gente cresce. Eu já falei isso lá em cima, mas vale ressaltar. A gente vira gente grande e continua se sentindo pequeno. Percebe-se que nossas dificuldades e problemas são proporcionais ao nosso tamanho e eu diria que isso daria até uma equação, mas eu não sou nenhum Colin da vida, então me contento com verdades não lógicas. A gente cresce e continua com saudade. Saudade do cheiro do almoço todo dia depois da escola, saudade de alguns amigos do colegial – a que eu posso contar nos dedos de uma mão – saudade de pisar na grama molhada do quintal de casa, do latido dos cães de manhã cedo, das visitas de fim de tarde dos avós, do suco de maracujá no café da manhã, quando este não foi substituído pelo ruim porém necessário café. Saudade da feirinha de quinta-feira na praça a uma esquina de distância, de ficar à toa com as pessoas certas, de não precisar de telefone pra falar com a família. Parece que tudo é mais bonito quando não se pertence mais a essa realidade. É, estou começando a gostar desse negócio de sentir saudade.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Tão rico será o capitalismo quando "olhar as estrelas" fizer parte do currículo

Fiquei pasma quando fui pra fora do universo que me separava da realidade dos seres humanos. Viver no interior do interior do fim do mundo sempre me deu uma percepção limitada do que estava abaixo do meu nariz. Incrível como mesmo com tanta informação, com tanta experiência contada por nossos avós, existem coisas que a gente não se dá conta até chegar o momento certo. E do que estou falando mesmo? Das pessoas, é claro. Gente, de todo tipo, elas me assombram. Se você já estudou biologia e já viu aquele papo todo de especiação, isolamento geográfico e afins, sabe do que estou falando. Quando a saímos da nossa zona de conforto, onde já se tem conhecimento das pessoas a sua volta e sabe que ali quase nada é passível de simples alterações, é aterrorizante perceber que há muito mais. É complicado se integrar nas mudanças e se jogar de cabeça no desconhecido. E este texto será mais um cheio de perguntas sem respostas.
Outro dia percebi que não acordei de mau humor. Foi frustrante pra mim notar isso. Como boa dramaturga da minha própria vida, fiz uma breve reflexão. Estaria eu perdendo minha identidade? Dei bom dia – mesmo que alguns não respondam, danem-se eles, isso não vem ao caso, em outro texto, talvez – pensei naquela manhã no mendigo que vi no caminho pra aula e fiquei sofrendo com aquilo e ainda ofereci um Guaraná Jesus pra minha professora preferida de biologia. Voltei um pouco no tempo e cheguei à conclusão que perder minha identidade talvez seja a melhor coisa que tem me acontecido.
Pensei não só em um pobre coitado pairando ali diante das suas impossibilidades, dos seus prováveis medos. Pensei também na falta de esperança, a que ele tinha ali como uma sombra que o perseguia em todo canto, sem destino, sem rumo e sem bagagem. O contraste que eu senti entre mim e todos que estão em situação tão miserável foi tão grande que não me coube, e o meu modo mais patético de transbordar isso foi fazendo uma redação, porque é a única coisa que estou apta a fazer por enquanto, e nem é tão bem.
Tudo chegou a um ponto que os mesmos que se dizem humanos, perderam a noção do que é humanidade. Ou será que eu que fiquei presa em algum momento da história em que as pessoas cuidavam umas às outras? Ou isso nunca aconteceu e é só mais uma utopia criada na minha mente cheia de façanhas?  


Hoje quando um professor de literatura perguntou casualmente quem sofria quando via alguém pedindo esmola no semáforo e todos (ou pelo menos uma maioria gritante) responderam que não, eu sofri foi com a resposta. O professor, provavelmente em razão de sua profissão que já exige dele ser um personagem fictício das leituras que ele nos passa, demonstrou completa indignação. Gostei dele um pouquinho mais depois disso, mesmo tendo desconfiança que aquilo talvez fosse uma farsa, mas adoro invenção, gosto de tudo que parece minimamente irreal. Sim, sou uma lástima, descontroladamente atraída pelo que não existe, porque a realidade, como eu já disse, me amedronta. O velhinho na rua me deixou estarrecida. Ao mesmo que me deu uma sensação (única?) de que as pessoas não se comovem com nada que vá mais além do seu próprio umbigo. Então, você vira pra mim e pergunta, mas cadê a novidade nisso? O meu descontentamento é justo esse, oras. Onde está o espírito solidário, o desejo de fazer o bem e o mais importante: a coragem para desenvolver alguma mudança?


Dá até um desgosto viver num mundo assim tão desequilibrado. Dá também a impressão que você não pertence a esse planeta porque tudo o que você faz é se importar. Mas quem nunca se sentiu um ser mutante em meio a tanta gente estranha? Acontece que se você não remar o barco, corre o risco de ser engolido pela onda. E eu não tenho tentado nadar contra a maré. Estou tentando melhorar minha imutabilidade (leia-se: deixar de ser cabeça dura) e como diria meu amigo Charlie, “participar”. Conhecer pessoas diferentes, apesar da essência totalmente leviana, é revigorador. Se pode tirar algo do comum, não dá pra ser um extraterrestre bitolado unicamente em sua própria concepção de vida pra sempre ou como eu mesma tenho ouvido ultimamente “ser trancada nesse mundinho de sonhos”. De jeito nenhum estou abrindo mão do meu mundinho de sonhos, ele é meu e ninguém me tira. Mas de fato, amadurecer a ideia de que há um presente e que ele está acontecendo agora, não faz mal a ninguém. Meu avô disse que precisamos ser camaleões que sempre se adaptam ao ambiente. Pois bem, sou um camaleão.
Tudo bem que ainda sou – um pouquinho – estranha, mas quem não é? Todos têm suas particularidades, todo mundo é meio pirado em algum aspecto ou em vários deles. E nesse tipo de assunto sou extremamente observadora. Adoro fazer watching people em todo canto que vou. Constato que as pessoas são sim especiais, independentemente da superficialidade que algumas delas carregam. Eu mesma já fui o maior peso pesado que poderia ter suportado. Hoje não ligo as pessoas me olharem torto por adorar astrologia, mitologia grega e poesia, ou quando falo que sou fã das estrelas e paro sim para admirá-las, ou quando as vezes saio apressada porque me dá um insight e eu preciso correr desesperada atrás de um papel e um caneta ou quando falo coisas esquisitas que ninguém compreende. Não tenho culpa se as pessoas não entendem mais a língua dos sonhadores.


E se te acharem esquisito, te chamarem de louco e o mundo te virar as costas, lembre-se que existem vários outros paralelos para se inventar. 

quinta-feira, 21 de março de 2013

Eu também não usei palavras ofensivas

Mas depois que corrigiram minha redação eu bem que quis. E ferir os direitos de alguns humanos também.

Pra não ficar muito cansativo, agora vou ensinar a vocês como deixar uma massa de estudantes indignados e com o sentimento de que todos que realmente se dedicaram a fazer uma boa redação foi injustiçado. Assim pensaram alguns corretores da mais recente prova do Exame Nacional de Ensino Médio. Infelizmente vivemos em um país em que a educação não é levada a sério e do jeito que vai, bom, o que me resta a dizer é que: não vai.
Era um dia comum quando meu professor de história colocou na lousa a notícia tirada no site do G1, o irônico é que ele expôs lá, não comentou nada, enquanto minha sala de uns cem alunos observava, em silêncio absoluto contendo seu estado de cólera. Passado um tempo, o professor retirou o slide e retomou a aula. Voltamos ao nosso dia-dia com o esforço de típicos estudantes que estão ali para aprender como tirar uma boa nota no vestibular e fazer isso do jeito certo, ou do jeito que era para ser o certo. Não, a nossa aula não foi sobre como preparar um miojo.
O que não cabe, o que não tem lógica é esse descaso com a educação brasileira. É uma falta de respeito que as autoridades têm conosco, parcela no mínimo fundamental da sociedade, os estudantes. Não só com a gente, mas com nossa mãe, nosso pai, nossos avós, madrinha, tios e todo mundo que está torcendo por nós. Eles, se me permitem dizer, sacaneiam com esse povo todo. É um ser humano ali dependendo de uma simples e, no entanto, decisiva correção. E eles? Eles passam os olhos e se não feriu os direitos humanos já está de bom tamanho. É uma vida na mão de “profissionais” incompetentes, que não tem consciência da repercussão de sua ignorância.
A questão, porém, não é fazer uma auto avaliação que afirme que o desempenho de alguém que tirou 1000 é pior que o meu. Mas de uma coisa eu tenho certeza: muita gente que não escreve mais coisas como “trousse” desde o primário se deu mal. Erros como esses passaram simplesmente despercebidos. Sorteio de nota? Poderia até ser, mas é bem mais provável que seja imperícia da parte dos responsáveis pela correção. Ou quem sabe inexperiência? Recém formados em letras contratados para tal tarefa e que simplesmente julgam as redações como bem entenderem sem cumprir as normas de correção que o exame mesmo cobra.
Tudo isso, é claro, não justifica e nem diminui a revolta, por parte nossa, vestibulandos que passam um ano inteiro aprendendo a norma padrão da língua e como fazer, de fato, uma dissertação argumentativa. Está certo o aluno sair da prova do ENEM dizendo “tomara que eu tenha sorte dessa vez”? Sorte é pra quem não estudou, já dizia vovó. Estamos tendo um sistema de educação baseado na “sorte”? Como que isso pode ser levado a sério? Como os erros do nosso país podem ser corrigidos de uma forma tão banal? Não são só de “mestres" da culinária que é feito um país, nem de viciados em futebol – que inclusive deixam isso claro no seu texto – e nem de alunos somente rasoaveis. Está na hora de abrirmos os olhos para a realidade do nosso Brasil, onde a lei do mais fraco que parece se perpetuar, sem que este tenha feito qualquer esforço, nem mesmo para uma nota 1000.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Direto do exílio


Nem consigo lembrar o meu estado de espírito da última vez que escrevi alguma coisa. Uma das minhas metas de ano novo é não deixar isso acontecer novamente. Claro, eu posso estar bastante envolvida na minha nova vida tentando participar e convivendo com o peso da responsabilidade que é saber exatamente o que quer da vida e mesmo assim não ter ideia do que fazer com isso. E como os pensamentos “de travesseiro” voltaram a me importunar a noite e eu mal posso dormir sendo abastecida de ideias e ideias que só surgem naquele momento precioso de sono, não pude ignorar esse impulso de voltar a escrever.
Deixei minha mãe chorando a me abençoar, e foi de verdade, não foi só porque passei a vida toda sendo obrigada a escutar as músicas (terríveis, vale acrescentar) do meu pai. A pobrezinha está lá, segundo ela, tentando superar a síndrome do ninho vazio. Mal sabem eles que eu ainda estou tentando aprender a voar.
Chegando aos meus tão esperados 18 anos, me dei conta de que não era bem o que eu imaginava (pasmem!). Não estou aqui com o propósito de fazer resoluções de início de ano, porque nessa minha grandiosa experiência de vida, sei que isso não dá certo. Tudo que eu quero é seguir um foco, sem me bitolar em mesmice ou apelar para extravagâncias. Que assim seja, nossa-Senhora-dos-vestibulandos-precisados-de-vossa-ajuda, Amém!
Como a gente não pode ter tudo que quer, do jeito que sempre sonhou, cá estou eu numa cidade desconhecida, onde ainda não decidi se, por tudo ser novidade, isso de alguma forma é legal. Não devo ter caído na real e, apesar de mais de um mês tentando sobreviver, da porta do meu quarto pra lá, tudo é selva. Sim, agora tenho um quarto só pra mim, mas não é algo que eu possa denominar “um canto pra chamar de meu”. Admito que gostava mais do meu palácio, onde eu era rainha e meus irmãos eram os subordinados. Agora tenho que sair da cama se quiser beber água.
A pergunta que não quer calar é: o que diabos mesmo eu vim fazer no coração do Brasil, na capital do Goiás, este curioso lugar onde as pessoas parecem não saber ouvir nada além de sertanejo e comer pequi? Bem óbvio, minha mãe responderia que eu vim estudar. E é isso mesmo, certo mãe? Estudar. Vestibular. Medicina. Vestibular. Se meus ouvidos tivessem trending topics era isso que ia sair. Bem entediante, mas não tire conclusões precipitadas e não deixe que isso te impeça de gostar de mim, sou legal, juro.
Enfim. Eu tinha um plano. E este com certeza não era me tacar pro interior do país. Criei uma antipatia genuína pela minha cidade natal enquanto morava lá. A desorganização, as pessoas, o calor infernal, só não era tudo, porque aí eu teria que incluir minha família e as pessoas que me marcaram de um jeito especial durante esse período. Eu quis partir, sem dúvidas, ir pra bem longe, um lugar ensolarado, onde eu pudesse ver o pôr do sol na praia de vez em quando e encontrar comigo mesma em cada esquina desse novo destino. Aconteceu tudo ao contrário, como já era de se esperar. Mas é como dizem, nunca se sabe quando o avesso pode ser o lado certo.
Aqui tem sim, dias ensolarados. Não tem brisa, o que pode se tornar enfadonho, abafado às vezes. Eu, como nordestina inerente que sou, basta a temperatura baixar pra 25ºC (e acreditem, já peguei menores) que já estou com meu melhor agasalho (ainda limitados no meu guarda-roupa) embaixo de umas duas cobertas me protegendo desse desconhecido agressivo, o frio.
E diferente do que poderia ter sido, eu não me encontrei aqui, não posso pegar um longo fôlego e suspirar “estou exatamente onde deveria estar”, na verdade estou bem perdida (pausa pra tentar lembrar uma expressão que meu professor de história falou sobre estar mais perdido que...?).  Eu estou tentando “participar”, ao mesmo que tento a cada dia não parecer um poeta no exílio cantando aos sete ventos sua canção saudosista.
Dentre tantas outras coisas que valem ser ressaltadas, sobre essas experiências inovadoras como morar longe de casa – que é bem mais que mexer em caixa eletrônico pela primeira vez ou fazer compras de supermercado ou fazer tudo que você não faria se sua mãe não mandasse – tenho em mim que esse ano reserva algo mais grandioso, não aposto fichas, assim como não apostei pra 2012, que por sinal foi um ano que ainda não sei definir como bom ou ruim. Sei que é hora de recomeçar, de procurar sempre ser alguém melhor. Se a mudança quer que eu aconteça, não há porque eu não retribuir esse favor.

Atrasado, mas de coração: feliz 2013!

domingo, 21 de outubro de 2012

Songbird



And all at once 
It gets hard to take 
It gets hard to fake what i won't be 
'cause one of these days 
I'll be born and raised 
and it's such a waste to grow up lonely

[Play: Born and Raised - John Mayer]




Imagino a sensação de sentar numa varanda, fim de tarde, sol indo embora com os últimos vestígios de chuva. Imagino juntar algumas notas de violão e tocar, vento, brisa, sombra de árvore soprando uma melodia, mas eu não sei tocar violão. Então eu fiz tudo isso, reuni alguns sopros a minha própria intuição, acho que consegui tocar um versinho de gaita. Imagino como seria se eu soubesse tocar violão. De fato eu montaria uma cena mais cinematográfica, mas a perfeição nunca esteve no meu currículo. Se eu traçasse uma nota musical, se eu inventasse um verso, seria com base num sopro de gaita, borraria um papel com trechos de um blues antigos e ficaria satisfeita.
Quanto tempo eu já não perdi me chateando com minha incapacidade de atuar minha versão mais simples, menos peso no ar, mais voo de passarinho querendo se libertar. Quanto do que eu já deixei passar lutando... Espera, hoje não quero usar palavras muito duras como “lutando”. Então, nessa breve pausa, esqueci-me de onde quero chegar, ser pássaro em busca de libertação nunca foi fácil. Talvez eu seja um canário, um beija-flor ou um daqueles mais escuros... Palavra dura novamente, escuro também não era onde eu queria chegar.
Retomando, talvez eu não seja um completo desperdício de tempo, talvez eu esteja buscando um caminho não tão claro em prol da minha causa, acho que era isso que eu queria dizer com “lutando”, era pela minha causa. Perdida, desesperançada, eu queria enxergar menos gaiola, menos prisão e sentir bons ventos em minha direção. Nunca fui boa com versos, mas acho que essa prosa está quase virando poema com tanta rima. É o medo despertando o melhor e o pior de mim, o medo de cortarem minhas asas, vivem cortando, podando galhos de árvore com meu ninho, ludibriando meu canto.
Ainda estou tentando descobrir os motivos por trás da minha aflição, mas hoje prometi não me complicar. É desafiador, até pra mim, não ser amarga, de novo e de novo escrevendo durezas e inexatidões, fazendo nó, curvas, quando tudo o que quero é seguir reto, numa direção exata. Moço me devolve a gaita, eu gosto de música que tem gaita no finalzinho, eu quero aprender o que eu gosto. Quando eu tiver um canto pra chamar de meu, um que não seja essa jaula de divagações complexas – a vida tem que ter um sentido, uma causa que não seja esse muro de complicações – criarei um peixe, quem sabe dois e darei nomes que não me leve de volta para os pensamentos de dentro da prisão, a gente tem essa mania de dar nome as coisas que nos fazem lembrar. Então eu regarei um jardim, dispensarei as flores cheias de espinhos.
Estou pensando em me mudar, abrir mão, promover o desapego, já diriam antigos amigos que tive. Tem uma vastidão pra voar, mas eu continuo me sentindo mais presa que nunca. Estou tentando chegar num ponto fatal aqui. Fatal é palavra dura, talvez eu coloque o “L” no meio da palavra e fique “falta”. Moço me dá a gaita, estou tentando chegar ao ponto que falta aqui.

sábado, 29 de setembro de 2012

Every teardrop is a waterfall

Naquele ano eu jamais pude imaginar que na minha vida surgiria uma coisa, algo, alguém que daria tão certo. É claro que o “certo” se restringe à certas particularidades, mas em geral quando eu não banco a “cuzuda” e quando você não precisa me olhar com esses olhinhos julgadores (que me matam, sério), tudo vai bem. A gente não pôde imaginar que daquele diálogo surgiria uma amizade assim, tão cravada, tão enraizada como a nossa. “Você gosta de Harry Potter?” “Gosto!” “Mentiraaaa! Vamos ser amigas pra sempre!”. Não foi bem assim, até porque o tempo alterou minhas lembranças e só o que guardei foi a essência da coisa mesmo. 
Posso dizer? Posso dizer? É que às vezes, nesse último ano que se passa, dá uma saudade que nem cabe. E veja só! Você já tem 18 e oficialmente já pode cuidar de mim, apesar de que idade nunca foi recurso pra que você o fizesse. Eu não sou tão boa em relembrar e muito menos descrever com aquela pitadinha mágica de sentimentalismo que só você tem. Mas aí me lembrei de uma carta que você me mandou uns anos atrás dizendo que quando a gente não sabe o que dizer, a gente conta uma história. 
A verdade é que eu já comecei contando uma história, uma bem divertida que ninguém vai entender, talvez nem nós duas. Uma vez você disse que tinha medo, que você achava não ser digna da minha amizade, sempre tão paranoica. Você me faz parecer A tranquilidade e a paz no paraíso, sabia? Só que eu nunca confiei tanto em alguém, nunca quis tanto que alguém não fosse pra longe, como você foi. Apesar de que a gente se abusa, mas como é mesmo? A gente se basta. 
O que você não sabe é que a sortuda sou eu em ter você, pequena Aluada, e não você por ter minha confiança. Acho que a sorte, de um jeito torto, vem favorecendo os dois lados da moeda e há de fazer muito mais, porque amizade como a nossa cruza as barreiras do tempo e nos torna cada vez mais suscetíveis aos projetos ainda não realizadas e quem sabe desbravaremos os sete mares e faremos aquela viagem doida. 

Posso dizer, agora em terceira pessoa, que ela é emoção. Ela que me faz rir mais da própria risada que da piada. Ela desaprova quando necessário e sabe entrar na onda. Deslocadas, nunca descoladas. Posso dizer que meus muros de concreto pra impedir que alguém entre, não são nada mais que barreiras transparentes, pois ela já desvendou tudo por meio de um bluetooth imaginário. Agora ela, ela é um mistério ainda a ser descoberto. De dentro pra fora. Nunca de fora pra dentro. Afinal, não há razão que resista a isso tudo. 

Uma vez que ela é a parte de mim que se mostra uma verdadeira criança com olhos brilhantes e agora, especialmente, uma mulher com os pés à frente no futuro, não há que se negar que ela vai longe, que ninguém a segura, nem mesmo os sonhos, embora que muitas vezes esfarelados, não a desestimulem a tentar de novo. Tem uma inteligência peculiar, ainda que odeie desde menina ser reconhecida SÓ por isso. Uma beleza que fascina desde a primeira olhada e só quem é bobo demais não perceberá isso. É preciso ter cuidado, não o cuidado tipo pisar em ovos, com ela você não deve limitar só a cautela, ela merece mais, merece a felicidade e o amor que sempre sonhou. Hoje é dia de pedir por isso e eu peço e vou além, que a proteção não te falte e ainda que o mundo te faça sofrer, você sempre tenha a quem recorrer, você tem a mim. 
Já deve ter percebido que tirei alguns trechos da sua carta do ano passado, só que agora os uso diretamente à destinatária. Foste a primeira a me dar aquele impulso básico pra começar a escrever, pobre de mim, apenas uma eterna caloura. Se nada der certo na medicina a gente vira escritora e vai pra Europa escrever uns livros e fumar uns narguilés num chalé na beira do mar. Não espero que você curta essa ideia, relaxa, já acostumei com as nossas incompatibilidades, que só servem mesmo pra nos completar, nunca pra concordar. 
Porém lembre-se que sua almofadinha vai estar aqui se precisar recostar a cabeça em algum lugar, pra rir, pra chorar pra bater – se quiser. Você sabe meu endereço, eu sei o seu e ainda posso a qualquer momento bater aí e dizer “vim pra ficar”, mas só pra te ver feliz, porque eu não te aguento! Brincadeira, não começa com as neuras, é mais fácil você me mandar embora aos berros. Mas ignorando meu completo humor de mau gosto, espero que você saiba que continuo aqui, ainda que de longe, torcendo e amando você da mesma forma. Foi brutal da parte do destino, levar você assim, porém certas coisas quando têm de permanecer, elas permanecem, você permaneceu e com certeza veio pra ficar.

domingo, 23 de setembro de 2012

Teatro dos desafetos



A razão é como uma equação
De matemática... tira a prática
De sermos... um pouco mais de nós!
Que o teu afeto me afetou é fato
Agora faça me um favor



Não pensar é uma matéria que venho estudando arduamente, mas que é, sobretudo, dificílima. Quando penso que repenso que tudo caminha para o lado contrário, será se acha, no fim, que talvez essa seja a maneira que a vida encontrou de me mostrar o que realmente importa? Eu não gosto do que é mostrado, eu faço de desentendida e inauguro todo dia uma definição de mim mesma para mostrar ao resto do mundo. Da realidade a utopia só existe um passo, dançamos? 
 Ontem o tempo esfriou, as coisas esfriaram e eu fiquei sentada boba alienada apreciando meu último suspiro gélido antes de me entregar, impensavelmente, para o mal. Quando falam sobre “mal”, impossível não pensar na cor, na ebriedade, no pedido de socorro. Impossível não se distrair ao mexer com fogo, eu me queimei. O ponteiro do relógio faz sua melodia constante e tediosa ao mesmo que meu coração faz engano, desengano, engano, des (...) até que ponto fingir ser algo que não sou pode me levar? Sozinhos nunca somos os mesmos pra nós assim como somos alguém diferente para cada um e é piegas, assim como o amor, tudo que tem a ver com a mentira, é piegas. É complicado se perder dentro de si e só se achar numa outra alma e ela nem saber disso. 
 Mas não adianta quanta ajuda seja oferecida, ou quanto seu coração ainda se predispor ao looping infinito da não correspondência, pois há quem diga que Drummond foi são e verdadeiro ao escrever Quadrilha, assim como há quem diga, por exemplo, que a primavera é a estação das flores. Já dei você tantas vezes como causa perdida que inevitavelmente perdeu o brilho, perdeu a confiança, se exauriu minha incontestável admiração, a única coisa que ficou foi essa sensação de lâmpada queimada, ferrugem, essa coisa torta a que chamam de Amor Obsoleto. 
 Hoje acordei chorando, mas sequer lembrei do sonho. Chorava com fervor, podia facilmente ser um pesadelo. Minha mãe pedia por mim, pude ouvir gritos desesperados e eu continuei sofrendo aquele pesadelo por um bom tempo. Não sei bem por que, mas deve ser mania da alma da gente se amargurar por não verdades e idolatrar a ilusão. Do mesmo jeito que você finge pra mim e ele finge pra você e assim por diante. 
Eu não tenho mais fé nem coragem de ainda jogar verdades duma maneira de te fazer perceber, porém eu mato o peixe pela boca, mas não fico engasgando esses meus discursos flagelados que repudiam toda essa farsa e ainda param e protestam pedindo mais. Chega a ser brutal a forma como reprimem uma antiga fera inconsolável com migalhas de pouco em pouco de dúvida a dúvida. Você acha que transborda, mas não preenche uma gota sequer.

sábado, 8 de setembro de 2012

(Im)previsto

Eu disse que não voltaria pra você, que não estaria lá por você. Mas, bom, foram tantas coisas que eu disse que não faria e fiz, tantas promessas que eu jurei não voltar atrás e voltei e me permiti navegar nesse mar mesmo sem saber nadar, me deixei afogar no silêncio das palavras não ditas e cair, cair fundo, direto pra tua vaidade, rumo ao-beco-sem-saída-que-você-diz-se-chamar-coração. 
 Disquei sem querer aquele número gravado na minha memória. Igual a você, impregnado, fatigando as madrugadas a fora e dizes sem saber o quê, mas te falta vergonha na cara tanto quanto por atender esta ligação impertinente no meio da noite. Tu me dás as chaves que preciso para engatar o meu senso sombrio, ou melhor, a minha falta de bom senso, o que falta para eu desatar esses nós que fazes e me provocas, garganta, estômago, não faz ideia do poder que possui sobre mim e me pisa e me possui mais do que a si mesmo e se entrega em camas e rostos e fantasias que diz amar, mas tudo o que queres é ser amado e o que tenho não te satisfaz uma gota sequer. 
 Se ainda te chamo agora é porque te preciso, se tu vens é por motivo que desconheço, pois nunca entendi suas idas e vindas, por vezes, simultâneas, que me confunde e me faz sedenta cada vez mais dessa tua água escassa que não deixa faltar, mas que não sacia. Mas se, por exemplo, tu me chamas, eu me demoro por orgulho, mas não aguento em vontade de correr para os teus braços que ora fecham ora se abrem a minha procura, porque não me deixar simplesmente ir? Afunda na tua paixão, na tua loucura e me liberta. Mas não me deixa, não me liberta desse laço, desse nó apertado que parece forca. 
 Quando baixo o tom meio enraivecida meio torpecida, quase que no intuito de ganhar por assim carícias ou a simples atenção fingida de perguntar se vai tudo bem. Mas não vai. Ao baixar o gancho do telefone, o cinzeiro já cheio, quero que já retorne a ligação e diga esqueceu do beijo de boa noite. Mas não liga. E se liga é por assim me prender mais ainda, sem me deixar uma única escapatória que consiga se desculpar da história toda eu-não-sou-sua-você-é-meu-portanto. Não me escreves por acaso, pois o papel é a lâmina, as palavras são as amarras que me seguram. Aproximo tentando fugir e desaponto-me e me doo por inteira. Do verbo doar, do verbo doer. Que espécie de encaixe sou na tua vida é um mistério, pois se não sou quem preferes conversar, muito menos com quem vai escutar seus velhos vinis e deitar-se contigo sobre o tapete da tua sala hoje à noite. Não sou dona das melhores palavras que te fazem dormir ou que te fazem alucinar. Não compartilho os teus devaneios nem nunca serei tua escolhida para tuas aventuras. Não tenho confiança no que dizes assim sem saber o quê, nem desfruto das tuas escolhas irracionais. Acho melhor admitir que não o conheço, afinal.


sábado, 4 de agosto de 2012

O último feixe de luz

Foi nesse início de Agosto que o tempo pareceu parar. Só que os segundos, minutos, horas, dias, semanas, no meu relógio de pilha fraca, no calendário de papel gasto preso na geladeira vazia da casa deserta, o tempo, não parava nunca de passar. Dentro da gaveta havia uma carta para Ana que jamais enviei. Um clichê inegável, faltava o pairar para a janela e ver a chuva caindo, mas não chovia fazia meses, o sol lá fora inundava o quarto de uma melancolia característica, o calor efervescente não combinava a frieza do momento nem à minha escolhida solidão em que tirei duma caixa de preferências para me ajudar a atravessar Agosto. Abri a gaveta para ler mais uma vez minhas palavras mal encaixadas dentro de uma parte daquilo que eu queria dizer. 

“Ana, 

eu não tenho artimanhas para me dirigir a algo que eu sequer sabia que tinha. Não, eu nunca tive e eu dizia. Parece que em voz alta tudo fica ou é mais real. Mas eu ando abafando entre as paredes desse quarto, abafando tanto, entre o refúgio que achei debaixo dos lençóis, dentro de tudo que eu queria dizer, mas que foge inexplicável ou se transforma ou se materializa em forma de decepção exacerbada, de esforço não reconhecido, em cansaço de sempre viver de metades, talvez eu tenha tido essa dificuldade em aceitar – que você pode chamar de coragem – e deixar pra lá, porque comigo sempre foi tudo ou foi nada, desisti dos seus meios termos e assumi a posição de nada na sua vida. Aceitei. Hoje parado sem muito o que fazer eu só posso dizer que sinto muito por você sentir tão pouco, pouco o suficiente para não preencher as lacunas que eu imaginava precisarem de você e da confiança que eu precisava depositar mas que você não foi capaz de conquistar. Não estou sendo ingrato, eu posso ter um dia confiado, posso em vários momentos, esses que a saudade chega a doer forte e lá no fundo, ter te feito peça essencial na minha vida, mas palavras, minha querida, palavras valem apenas no momento que são ditas e você escolheu a hora errada para dizê-las, mas quem sabe era tudo que eu precisava ouvir para me despertar e dar esse passo importantíssimo: parar o quanto antes. Eu não queria chegar a essa conclusão, me recusava, era mais do que eu, naquele momento, podia suportar, só que a verdade é, sobretudo, inegável, você se concretizou, você é indiferente a minha falta e capaz de sustentar uma vida toda nas costas do orgulho e dos seus parâmetros, Sua Base. Meu melhor amigo agora é um autor de livros tristes, porque perdi a quem procurar nesses dias chuvosos dentro da gente. E eu precisava. Te dizer que fingir que não estou nem aí pra você foi uma das coisas mais difíceis que já fiz. Que me apunhala nas costas a dúvida, aquela que não me deixa ou não quer que eu acredite que você se foi pra valer ou se está enfrentando o mesmo dilema ou. E que não, eu não conseguiria. Encarar outra vez seus olhos de uma inocência fingida, de acusações pelos meus erros, sobrecaindo em mim toda a culpa do mundo. Encará-los não passa de uma vontade acovardada, medo de ser o primeiro a dizer, ou pior, o único a dizer." 

Ventava forte no parque. Atravessei distraído aqueles campos de girassóis abertos, pareciam satisfeitos com a intensidade do sol naquela tarde triste de sábado. Eu não saía de casa havia um bom tempo, eu não arriscava abandonar o sofá, os discos, cigarros e vodca, o cachorro velho, o cactus que deixei morrer. A claridade ali meio que me assombrava. Num banco logo a minha frente estava Ana. Ela não parecia ter reparado em mim ou simplesmente ignorava ou devia pensar que era apenas um desconhecido passando e na realidade eu era. Mas eu não me intimidei como de costume, fiquei parado olhando, suas faces relaxadas, estava bem, entregue a uma paz que não, eu não compartilhava. Tinha flores na mão, mas não eram girassóis, outros tipos de flores que eu não soube reconhecer. Na outra mão, eu também não tinha certeza, segurava firmemente o conforto dos seus sonhos, o que sempre desejou num mundinho que era só seu e que eu percebi, não havia mais espaço pra mim. E quando eu acenei, incontido, esperei que ela virasse, mas ela não virou. Quando chamei seu nome, esperei que ela olhasse, mas ela não olhou. Continuei esperando que ela sorrisse e corresse para me abraçar, mas ela não me via, não virava, não sorria, sorriso costumeiro, não corria em minha direção.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

O mal que não tem raiz

Eu sei que tudo isso é um pouco difícil de processar, minha querida, mas preste bem atenção: o errado nessa história o tempo todo fui eu. Sim, já tivemos essa conversa antes, eu confessei muito do que estava preso em mim, mas nunca pude te encarar face a face e dizer aquilo que eu sempre quis dizer, mas é uma dessas coisas que ficam dentro da gente, mastigando e que engasga depois de engolido. Você provavelmente já deve saber, me conhece tão bem, mas sabe que a atitude mais correta a fazer é fingir não sentir o fogo queimando entre os vértices dos nossos sentimentos antes que nos transformemos de vez em cinzas. Naquele dia, e alguns que o antecederam, eu mal pude respirar. Porque é normal se sentir apagado de vez em quando, mas você tem esse dom de me reacender em dias de pouco sol, de me aquecer quando faz frio lá fora. Sua presença, descobri ser um vício incontrolável, algo pouco saudável porque apesar de palavras cheias de juras, eu jamais pude competir com a sua outra metade que não me amava, jamais pude me acostumar a esse nosso relacionamento unilateral. Você já pensou na força que uma pessoa fragilizada pode ter? Viver de migalhas não alimenta um homem sedento de atenção, possuir metades ao invés de por inteiro leva a ações bruscas, porém jamais sem antes terem sido provocadas. Você me seduziu para um túnel sem saída, coração, e por mais que você seja novo, maduro e reinventado, você continua indo parar na mesma ratoeira, atraído por sobras que algum rostinho bonito te deu. Hoje jurei não procurar, não ligar, não deixar mensagens na sua caixa de entrada. Hoje jurei esquecer seu endereço, me perder num bar qualquer, me embrenhar em solidão, achar alguém diferente que me faça esquecer. Hoje eu venci meu desafio, mas por que continuo me sentindo como se tivesse perdido? Talvez eu tenha deixado passar a parte de que você talvez desconheça, essa parte de mim que te ama perdidamente. Não, não só uma parte, essa é a diferença entre mim e você, porque você pensa que me enganando vai poder também se convencer de que foi só uma noite, que não vai mais acontecer. Eu fico arquitetando aqueles instantes para os meus dias intermináveis e eles se repetem até virar produto da minha imaginação. Mas se você me conhece tão bem, deveria saber. Devo ter mesmo estragado tudo, nossa relação, clara, limpa, meio sem vergonha e mais uma pitada de desejo no meio, só podia mesmo dar nisso, você sabe o quê. Quando costumava me procurar, pra contar cada parte do seu dia e pra dizer como estava decepcionada com eles, com ele, eu sofria com você por eles, por ele. Então você parou, e eu passei a te procurar só porque você não me procurava, ligar só porque você não me ligava, amar só porque você não. Preciso de motivos? Está na cara que sim, não é simples se conformar que tenhamos perdido aquilo que cresceu tão sem controle dentro de mim, algo que eu sabia desde o início que ia acabar daquele jeito, mal. Vem aqui me dizer o que quer com essa palavra “acabar” que meu coração não aprendeu a traduzir. Abre de vez esse jogo e toma uma decisão antes que eu o faça e todas as partes saiam perdendo. Acredite, eu sei me retirar quando chega a hora, percebo quando não dá mais pra mim. Seja lá quem for o culpado, nós dois vamos carregar o fardo, esse arrependimento que já posso ver nos seus olhos agora. Leia de novo nossas conversas, lembre-se das promessas que você não cumpriu, grave bem o quanto você me elevou para o topo das suas prioridades para depois me empurrar ladeira abaixo. Não me venha com discursos falso-moralistas de que eu só lembrava quando você esquecia, estive do seu lado quando tudo desmoronava sob sua cabeça e até você reconhece isso. Dê-me logo a desculpa que preciso para dar um basta nisso. Desencantou, o amor que você pensava ter acabou, e que eu posso me esquentar com outros corpos, me lamuriar da vida na companhia de outras, conseguir um novo motivo para escrever e até arranjar um relacionamento real e não essa mentira que estamos vivendo nos últimos meses. Então eu paro e penso, tão mesquinha, tão meio termo, tão vítima da própria existência, você não é tão santa quanto gostaria de ser e nem tão diabólica quanto pensa que é. No jeito que me paga de surpresa, desprevenido e sempre pronto para dar o braço a torcer. Caio nessa armadilha sem volta, um masoquista que atende às suas fantasias promíscuas. Isso soa maquiavélico suficiente pra você? Eu que sou fraco demais para reagir, pois toda vez que olho olhar de menino abandonado, cachorro sem dono, é você quem está lá para me salvar, pra impedir que eu me torture da dor que você mesma causa. É que quando eu não estava bem, era sempre a você que eu recorria, e agora que eu não estou bem por causa de você, não sei mais quem procurar. 

 Whatever happens tomorrow, we've had today.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

No divã

Tenho sérios desvios de comportamento, doutora, sei que você ouve coisas do tipo todos os dias, mas eu só soube começar se fosse assim. Isso, conserte a postura, talvez você se canse um pouco, acontece que eu ando meio assim ultimamente, como se todos estivessem cansados, fadados da minha presença. Sabe como é? Sentir que está ocupando um espaço imenso e ao mesmo tempo se sentir minúsculo dentro da própria existência? É confuso, nem sei dizer ao certo até que ponto isso é real ou simplesmente produto da minha imaginação. Acontece que eu sou muito inventiva, doutora. Conheço dezenas de pessoas, reais, até certo ponto, algumas delas me enlouquecem de verdade, mas não são elas, é uma projeção, que de certo eu que criei. Não, não aposto na carência, sou muito autossuficiente, porém sofro de transtornos de realidade, eu não confio em gente. Sim, qualquer coisa que se mova, que fale minha língua, que tenha essa capacidade de me consumir por dentro, eu não confio. Insegurança? Provavelmente, doutora, é um caso a se pensar, não faço ideia de onde vem isso, eu costumava ser mais decidida e determinada, lutar pelo que quero, mas ando tão desfocada, longe de onde meus pés firmam e não faço nada para mudar isso, deixo só a mercê dos outros, que passam apressados na rua e me empurram de um lado para outro me deslocando do centro até que eu fique isolada, largada e finalmente esquecida. Se tenho muitos arrependimentos? Ora, a maioria dos que eu deveria ter não tenho. Sinto culpa, o tempo todo por coisas que fiz, pelos estragos que causei, mas arrependimento mesmo? Deus que me perdoe, tem vezes que me pego pensando no monte de estupidez que fiz e morro querendo voltar praquele lugar, praquela pessoa só pra ter aperfeiçoado mais o momento. Talvez seja essa a definição mais exata que consegui até agora: aperfeiçoar o que já está errado para diminuir o arrependimento e aumentar a culpa mais ainda. Eu sei, doutora, estou dando nós desnecessários na minha cabeça, e você já deve estar cheia da minha falta de clareza, vou tentar ser um pouco mais objetiva. Deve ser masoquismo, pra dizer o mínimo, fico triste por vício, assisto de arquibancada o que me mata de ciúmes e nem pisco o olho, pelo contrário, finjo cínica que está tudo bem ao mesmo que por dentro está tudo desmoronando. Entende? Eu não preciso de exército nem armas para começar uma guerra, basta um litro de vodca, um coração em pedaços e a solidão do meu quarto. Às vezes eu até assisto um filme, só que não ligo a TV, deixo as cenas de horror passarem aqui dentro mesmo, sinto medo, falta e uma tristeza que ninguém dá jeito, ninguém exceto quem causou essa anarquia. O problema da dor é que você quer ser consolado por quem te machucou. Você acredita mesmo nisso? Que existem pessoas desesperadas por atenção? Existem, mas essas pobres almas sempre esperam a atenção de alguém específico, no meu caso, esse alguém tem nome, endereço e uma lista de coisas que deixaram a desejar, uma pilha de cartas e promessas falsas, uma mudança no quadro geral da minha rotina. Está dizendo que chegamos ao ponto x? Pois digo que tenho várias dessas incógnitas que não foram solucionadas na minha vida e sinto que esta é mais uma e a mais problemática de todas. É, doutora, uma bomba relógio que não tem hora marcada para explodir. Eu estou adiantando o inevitável, é isso o que eu sempre faço, você está certa. Só que tem coisas, essas que crescem dentro da gente, criam raiz e que se tornam impossíveis de serem arrancadas. Sei que estou tampando o sol com uma peneira, me dividindo entre o seguir em frente e fingir que está tudo bem e arriscar mais ainda a satisfazer meu desejo doentio de querer o que está fora do meu alcance. Acontece que optei pela segunda opção e arruinei tudo, comi o fruto proibido e estou eternamente condenada a viver no inferno que eu mesma criei. Eu poderia ter permanecido com a minha lucidez, doutora, mas a realidade não me atrai. Prefiro continuar nesse toma lá da cá do que tomar uma decisão, sim, talvez eu seja uma indecisa por natureza, já mencionamos isso, mas daí admitir o que eu sinto? Seria me autoviolar, não? Acho que estou sujeita a viver de relações unilaterais, de me provar uma louca, promíscua que coloca tudo a perder e não pensa direito. Onde acha cura pra isso? Pra qual lado eu vou se eu quiser correr atrás? É, doutora, acho que encrenquei você.

domingo, 24 de junho de 2012

Não olhe agora

(...) estou olhando pra você.

As vozes na minha cabeça pediam para que eu parasse. Estúpida, alienada, masoquista. Eu não queria deixar minha mão escorregar da sua, meus dedos percorriam cada canto seu como quem maneja uma obra prima e os cheiros me submetiam a uma estranha calmaria, dessas que o coração palpita até a batida chegar surda aos ouvidos, mas que me faz sentir uma momentânea paz. Você sorri tímido da minha falta de jeito e eu estou no céu novamente. É pretensioso da minha parte me envolver em um sonho tão abastardo. Aquilo que me tira dos eixos, que me faz caminhar em areia movediça e ainda sorrir quando está afundando. Eu não pude dormir hoje sem antes dizer aquelas palavras, peço que desculpe as minhas atitudes impensadas. Não gosto de me sentir emocional, é como se uma boa parte de mim fosse levada pelo vento e não restasse segurança alguma firmando meus pés no chão, ali, vulnerável, pronta para ser sua, gato e sapato, esquecida da real faixa em que seus pensamentos flutuam. Com quem eu estou brincando? A realidade me dói como um tapa e o meu silêncio nunca perdurou tanto. Já não posso mais competir com seu amor. Um jogo de laços findados, uma dança incoerente com troca de pares e passos improvisados que nunca parecem se encontrar, eu não quero participar mais. Só quem sai perdendo sou eu, sempre. Você é uma esperança que nasce por um único feixe de brilho falso e depois vira, todo holofote, na direção contrária e eu fico aqui na única e exclusiva intenção de assistir seu show. Você diz que o meu problema é achar que nada nunca é suficiente, só que a verdade machuca. O meu problema está na imprecisão com que você me trata e do pouco caso. Às vezes penso se você não sabe ou é porque não faz mesmo questão. Vê? A manhã está cinzenta, faz frio lá fora e aqui dentro também. Eu queria poder dizer em palavras claras, feias, porém sem resquícios de dúvidas. Não está cabendo mais ter que me esconder atrás da sua felicidade e fingir que estou participando dela. Deixei tudo isso ir longe demais. Sei que você me entende, não me leve a mal, eu também não quero você. Parece rejeição e quem dera fosse simples assim. Cada vez que fecho o olho a sua imagem é a minha maior defesa bem como uma retaguarda. É como se me tocasse a suavidade dos gestos e das suas feições tentando contar alguma piada sem graça que me fará rir de qualquer maneira e beijos que de tantas idas e vindas eu já enquadrei no espaço menos vívido da minha memória. Nós somos um exemplo perfeito de romance não realizado antes mesmo de acontecer. Nós adormecemos na vontade um do outro, em que impera a negação, o justo fato de aquilo tudo ser uma ilusão. A sua atenção é que nunca é suficiente pra mim. Eu não suporto estar tão perto e distante ao mesmo tempo e ter que conviver com os vieses da sua vida. A sua paixão invencível por quem realmente merece, o jeito como você escolhe tão bem a quem depositar confiança. Queria que você fosse mais errado, queria eu ser ter um pouco mais de razão nessa história, mas ambos sabemos que eu sou a única a não faz sentido algum. Não me agrada ser um segundo plano indispensável. Não me jogue contra a parede das suas inseguranças, não me use como instrumento de apoio para suas quedas. Não acalenta as palavras soadas ao pé do ouvido cheias de significadas e meros conteúdos vazios de autenticidade. Não está escrito em lugar algum como é difícil estar amarrado a uma impossibilidade.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Reticências

Concluí que gostava mais da vida daquele jeito. Decepcionando mais do que era decepcionada, esperando menos do que era esperada, amando menos do que era amada. Só que nem sempre era assim. Uma ou duas conversas jogadas fora, olhar fixo no vão de entrada, ninguém nunca chegava. Só chegava ao ponto de saber que nada seria suficiente para suprimir aquele desejo de ser mais. 

- Uma boa dose de realidade.
Disseram. 

Ficou como uma dessas coisas que não foram, mas permaneceram assim como se tivessem sido. Entornava meu roteiro de encenações como uma canção que não cansa de repetir seu refrão. Sonhando mais do que podia, tentando achar sentido nas coisas mais do que era preciso, amando mais do que admitia. Você não se cansa de ser tão ensaiada, menina?

terça-feira, 1 de maio de 2012

O que sempre acontece, de viés

Amontoada de cartazes e garrafas vazias, meu cômodo é aquilo que se pode esperar de um frescor adequado para o meu momento distraído, numa estranha inadequação. Aliás, eu até tragaria um cigarro agora, para dar um ar mais distraído. Atravesso de novo e de novo aquela velha avenida, vou ouvir um rock brega naquele bar de sempre, invento o meu segredo. Ele chama o garçom, pede mais uma rodada e eu me disperso na curiosidade de saber onde aquilo vai dar. Na minha já aceita condição de “outra”, concordo ficar mais um pouco, já não tenho receio nem uma gota de dignidade. Se meu julgamento final for dentro da minha cabeça, estou eternamente condenada. A fraqueza não me deixa reagir e eu recaio aonde quer que os braços dele apontem, isso é verdade. Invento desculpas pra mim e pra ele de porque eu não vou embora, minto que preferia estar em qualquer outro lugar. Atenho-me a necessidade de dizer o que não deve ser em alguma hipótese dito, não por mero pudor, mas por aquilo tudo já ser um assunto morto enterrado e que ninguém ali iria dançar depois da música já ter terminado. Enquanto isso, ele tenta descobrir meus segredos, por que razões não sei. Pode ser por verdadeiro interesse em desvendar essa minha alma que erra em sentir ou apenas para me ganhar com seus falsos encantos e ter alguém para esquentar sua cama hoje à noite. Claro que ele pode escolher algumas amandas ou letícias por aí, e a dúvida é que me prende àquela cadeira em sua frente enquanto ele conta qualquer história sem valor e enche sem medo meu copo de mais vinho. Estou um pouco ébria e sei que meu segredo é mentir desesperadamente que não gosto dele. Como se não aliviasse um pouco o peso do mundo estar ali desfrutando daquela companhia, como se minha vontade não fosse de que ele surpreendesse com qualquer gesto brusco que me tirasse o fôlego. Gosto do jeito dele ignorar o celular tocando, mas sei quem o procura e isso me traz de volta a realidade. Estou tomando proveito de rédeas alheias em que não posso controlar. Será o vinho? E me aborreço por vício. Congelo de ciúmes e a primeira reação é o silêncio. Depois a súbita ameaça de ir embora. A minha insegurança o faz rir e dizer que não passo de uma menina boba. Não passo de uma menina boba, angustiada, de punho e mãos fracas que não sabe tocar seu coração nem desatar seus nós. A história se repete. Uma semana sendo amante de meninas, mulheres, amando-as, despenteando cabelos e sentimentos. Toda essa voracidade vem parar sempre no mesmo porto. Uma sexta-feira cinzenta, com uma estranha conhecida, que pensa que conhece, mas não a vê. Uma noite de música velha e vapores de bebidas baratas, caminhadas ao vento frio noturno sob calçadas enlameadas de fumo, resquício de chuva e buracos. Ele canta uma canção que me toca e envolve. Uma canção que quase me faz acreditar e aceitar que o amo, mesmo em toda informalidade existente ali naquele pequeno espaço entre nós dois. De repente sou tomada pela esquisita satisfação de estar onde queria estar. Ele me tocando, eu acoberta de um abraço que me dá a sensação de ser de verdade, aquilo, aquela confusão. Fui seduzida de novo para aquela ratoeira e me deixo enganar. Estou esperando a qualquer momento uma renúncia, mas ele não me machuca, ele continua me fazendo crer naquela realidade inventada. Permanece me suportando, não recusa o abraço. Eu sinto uma febre, medo e me vejo apática. Ele finge que acredita, mas não solta, não alivia essa corda envolta do meu pescoço e demonstra indisposto a me deixar ir. Dessa vez sou eu que finjo que acredito. Sorrio meio exagerada, o álcool e todo o resto já me subiu a cabeça. Vou embora, esqueço o celular desligado dentro da bolsa, perco as chaves de casa, abandono a cidade e percebo que não queria te deixar sem antes te dizer tudo isso. Que nem eu sei. Encontro ele vazio, olhar distante na janela do meu quarto. A batida violenta da porta deve tê-lo chamado atenção, pois ele se virou pra mim ao mesmo que eu encarava o chão numa tensão, uma exustão imensa. A indecisão de não saber se queria sair fugindo daquele inverno que se fez no meu cômodo ou de ficar e vê-lo incendiar o que ainda me sobrava, amansar uma antiga fera com beijos enternecidos. Eu não queria estar em outro lugar, imagino o final daquela noite em complacente perfeição e tomo a última taça de vinho num gole só. O peixe morre pela boca.

sábado, 28 de abril de 2012

A terceira pessoa

Ela é sua colega de classe, e dependendo pra onde você olha, ela é em parte uma total desconhecida, personagem principal da mais incrível história do seu verão passado. Ela é amante disfarçada de amiga e pode ser o contrário também. Um medo comum em que se tem ao conhecer essa pequena criatura imprevisível e ao mesmo tempo encantadoramente perdida é de que ela saia caminhando entre as pessoas a cada piscar de olhos, a cada mera distração. Ela some. Por que ela insiste em omitir sua vontade? Por que não se cansa de dançar no ritmo da música se nem ela gosta daquele som enjoativo que amolece os sentidos? Espera por uma canção diferente, será? Atrás de um sentimentalismo incondicional, estava ali alguém que era fácil esquecer, até que fosse embora de vez. Ela não era forte, pelo contrário, era fraca demais e se satisfazia com o pouco que lhe era dado. Sua coragem de virar as costas pro mundo sumia toda vez que uma pessoa pegava em seu ombro e dizia pra ficar. Fique mais um pouco. Ela por um instante esquecia do seu desgaste interior e ficava e alimentava aquele monstro que tinha fome da sua presença, que quando se via longe, mordia com força lá dentro pedindo por mais doses de você, aquele pedaço de carne que ela não podia roubar. Falou certa vez para esse alguém que era de uma segunda pessoa, que ali ela repousava uma paixão imensa. Ela disse “eu quero você perto de mim, sempre”. Estava na cara que nunca havia pronunciado aquelas palavras antes. Ela afastou um pouco aquela imagem para não se ver diante da vergonha. Não olhou nos olhos. Ela não olhava nos olhos, um tipo de timidez alternativa, que se olhasse, isso a denunciava e ela prezava sua lucidez. E perdia, a timidez e a lucidez, bastava pisar em solo desconhecido. Nessa de brincar de dizer a verdade, se fez ali uma barreira que causou exaustão por criar laços ilusórios com as pessoas e direta ou indiretamente receber nada em troca. Ela entendia que o mundo às vezes não cabia as possibilidades em que ansiava, mas sufocava, fragilizava, essas coisas, essa impossibilidades da vida. De tanto colecionar experiências, acumulou uma carência gigantesca de base, de conforto, de alianças simples que não façam o mundo cair sob sua cabeça. Ela não guarda, nem aprende nunca. Acumula. E nunca conta pra ninguém. Sente e é tomada de pudor dentro da própria realidade, não esquece fácil e esse é seu maior pecado. 


Would you leave me if I told you what I've done? 
And would you leave me if I told you what I've become? 
'Cause it's so easy to say it to a crowd 
But it's so hard, my love, to say it to you out loud

sábado, 21 de abril de 2012

Entoando velhas notas

Essa é provavelmente mais uma dessas cartas que depois de uns rabiscos vou amassar e jogar contra a parede. Eu não queria te atormentar mais, sabe-se lá como vem sendo sua vida nesse último ano, e nos outros dois passados, o que me alivia é poder descontar toda a minha tristeza em mim mesma de forma que me convença que lá no fundo você sabe o que está se passando. No fundo você sabe. O que não dá pra entender é como nós nunca nos cansamos de jogar esse jogo de farsas e silêncio mútuo desses que quando o frio aperta, bate feito soco no estômago.
Estou condenada a viver achando resquícios do passado em toda esquina por onde passamos, em todo verso solto talhado como que para assombrar ainda mais meus dias achando que cada passo meu é assim por uma razão e que quando coloco na minha cabeça que tem a ver com você, nada é por acaso. Sempre fui daquelas que se confortam na própria imaginação e prefere o mundo raso dos sonhos a acreditar que algumas coisas são realmente de verdade. É mais fácil me guiar por caminhos que nós já traçamos, sem muitos esclarecimentos se já passou ou ainda é apenas cedo demais pra saber, do que me jogar num mar inexplorado onde sei que não consigo nadar.
Engano meu achar que eu poderia ser a chave das respostas da sua vida. Estou condenada a servir de reserva quando sua ignição der prego. Essa é a hora em que você, até então distraído, quase que relaxado tragando uma fumaça do seu cigarro, se volta contra mim usando um tom grave e vocifera com urgência que eu sou uma louca desvairada que não sabe viver sem ter sua dose diária de atenção e que eu não faço a mínima do que é ser esquecida quando o que se mais precisa é de um abraço que te faça esquecer o resto do mundo. Pois eu sei. Sei muito bem a sensação de não ser sempre a primeira, lição dada, graças a você. Nunca vou te perdoar por ter me ensinado isso do jeito mais amargo, me deixando uma viciada em solidão, já que todo o resto me leva a essa estrada direcionada ao mesmo beco sem saída.
Venho buscando alternativas, me metendo em relações tão perigosas quanto, contando a história da minha vida para o primeiro que aparece perdendo seu tempo dando-me um pouco de atenção. O problema em eu me abrir demais pra alguém é que quando me dou conta do estrago, já estou à beira de um precipício, pronta pra pular. E eu me deixo sim, iludir por toda merda de traste que aparece.
Não sei o que fazer quando o que me faz forte é a mesma coisa que me mata aos poucos. Você foi meu porto seguro e isso reduz minhas chances a zero de ser salva já que entre nós só restou um monte de palavras não ditas e um distanciamento que não se explica nem em mil frases feitas que eu tentar fazer. Fico repetindo versos de canções pra ver se você volta ou mesmo escrevendo cartas que nunca serão enviadas, me perdendo nas chances que eu deixei escapar. E tentando me convencer que esse tipo de distanciamento não se espera, se corre atrás. E não me convenço e não corro.





- Eu disse que a amo tanto, que até dói.

- Sim, tudo bem.

- Eu disse que dói... amar você.

sábado, 14 de abril de 2012

Uma contida reflexão

Outro dia entretida numa conversa despreocupada com uns amigos, daquele tipo que faz a gente rir e esquecer um pouco do peso da própria existência nesse mundo pregador de peças, uma senhora apareceu pedindo dinheiro para comprar remédio pro filho doente. Não sou muito do tipo que reflete sobre essas causas sociais perdidas ou bate boca por aí defendendo os direitos humanos. Mas sabe quando dói ver alguém uma situação visivelmente diferente e passando por dificuldades inimagináveis, esse tipo de coisa, que faz dos nossos problemas uma série de bobagem leviana? É, não tá fácil pra ninguém.
Acho que cansei de sofrer a minha dor e comecei a sentir a dor dos outros. Eu quis abraçar aquele acontecimento como quem tenta agarrar pra si algo que estar prestes a ir embora. Eu tive várias vezes esse sentimento de revolta com a injustiça que acerca todos os dias nossa vida e o fato de todo mundo achar normal ver uma velhinha pedindo dinheiro pra tentar salvar alguém importante pra ela. Quantas noites eu passei insone tentando expurgar de dentro de mim lembranças insolúveis de pessoas que eu julgava essenciais que não tiveram a decência de lutar por mais uma chance? Eu penso no que eu estaria disposta a fazer se a vida de algumas dessas pessoas tivessem em jogo.
Ninguém pensa nisso. Só quando vê de perto e por um momento de comoção pensa que o mundo poderia ser um lugar melhor se cada um, começando dali, fizesse sua parte. Não vou ser hipócrita, também faço parte do grupo dos acomodados de coração mole que se importam e nada fazem para acabar com esse estado de acomodação. Tapo o sol com a peneira e confesso que uma pilha de nervos me consome ao me deparar com gente o tempo todo reclamando da vida miserável que não tem.
Falta tempo, recurso e boa vontade. O sentimento fraqueja e convence a nós mesmos de que só isso já é o suficiente. A verdade é que compaixão nunca encheu barriga de ninguém, nem complacência basta para salvar uma vida. É preciso resgatar de lá do fundo o que está perdido. Uma tostada de coragem, já que não se pode salvar a si mesmo, que invista em algo mais e não dê por causa perdida o resto dos dias. Eu quero lembrar de pegar na mão da próxima vez que alguém virar as costas pra desistir, que se é pra afundar dentro desse mar agitado, que não seja pra navegar sozinha mais uma vez.

sábado, 31 de março de 2012

Na minha coleção de pedras

Vou começar a jogar pedras em todos que se puserem na minha frente mais uma vez tentando me subjugar, porque ameaçar não tá adiantando mais.
Todo mundo vive criando regras do tipo cunho recíproco, todos vivem na ilusão de serem um pouco melhores do que aquele rosto vazio que encara o espelho a cada manhã, depois que o despertador toca, como que um botão automático ativando a vida para mais um dia. Se diz bom dia para ser educado, quando lá no fundo está desejando que o mundo inteiro se exploda.
Não é assim? Se você não se encaixa, por favor, pule para a próxima página da web, eu não sigo padrões e nem dou risada por obrigação, o meu maior defeito talvez seja fazer apenas o que me dá vontade e medir esforços apenas por quem eu ache que mereça e às vezes nem merece.
A verdade é que me dá uma enorme preguiça de avaliar cada passo, vigiar cada palavra, como se eu fosse uma grande desocupada que vive de inventar farsas só porque é legal e é o que seria supostamente aceito por esse grande e ridículo círculo de pessoas que vivem ao meu redor, como urubus só esperando uma falha pra cair em cima.
Estou nessa não é por ingratidão nem por rancor exacerbado, porque até onde eu me lembre, ninguém nunca levantou um dedo por mim e pra ser sincera não estou esperando um grande milagre acontecer, acostumei com a vida assim, íngreme, doída, às vezes um pouco insólita, mas exatamente assim.
E vezenquando, eu perco o sono, rolo de um lado para outro ouvindo vozes inflamadas me dizerem que no ritmo em que ando afastando todos, vou acabar isolada, pairada diante da minha própria solidão. Não entendo como pode ser tão difícil perder-o-controle-da-situação e deixar-escapar-pelas-mãos essa corda que era pra guiar a gente pra um lugar melhor, para onde tudo fosse mais claro e a simplicidade não fosse coisa da imaginação.
Mas com tanta coisa na cabeça, é possível lembrar de ser um pouco mais de mim mesma?


[Try again - Keane]

sábado, 17 de março de 2012

Com que caminho eu vou

Sabe o que amedronta, pra valer, uma pessoa insegura? Possibilidades.
Possibilidade de reencontros, de encontrar-se. Possibilidade de dar certo, bem como a possibilidade de ter que encarar o duvidoso. Possibilidade de uma saída num sábado à noite, de um dia nublado no verão, de ser a última pessoa que alguém pense antes de dormir e não somente alguém que tapa buracos, da possibilidade de um novo ou velho amor, e ainda a possibilidade mais que absoluta de perceber o tempo fazendo seu trabalho de levar e trazer para nossa vida, mais e mais possibilidades.
Descobri um fato sobre mim que pode parecer bem banal, mas vez e outra me pego revirando uma caixa de discos antigos e virando goles do velho vinho barato da estante. Tenho uma afinidade incorrigível pelo errado. Tudo que não presta me fascina, tudo que é pá errada me seduz e eu piro só de ouvir a palavra “perigo”. Quando a situação parece sem controle e um fulano qualquer vem me avisar que achou uns pedaços da minha ingenuidade pra trás, eu afogo tudo que tem pra afogar, faço tudo que vou me arrepender até começar tudo de novo. Então aí entram as possibilidades e o tempo.
Havia muito, os discos abandonados, as cartas não mais enviadas e celulares desligados e esquecidos dentro da bolsa. A situação se converteu para o máximo que a indiferença já foi capaz de alcançar. Nem preciso dizer como às vezes essas coisas, esses desfechos prolongados da vida me assustam. Tão prolongados que quando se dá conta já está em outra, cometendo os mesmos erros de outros jeitos, com novos gestos talvez um discurso um pouco mais inteligente. Mas a essência é a mesma, o que fica e o que provoca, isso nunca muda. Parece que a nossa vida toda é programada para repetir o mesmo filme, só que em cenas diferentes. Isso acaba com a pessoa, principalmente para os inseguros, como nós. E eu, eu estou cansada de fazer esse papel que não é o principal nem o de figurante na vida das pessoas. Chega desse meio termo, ou sou tudo ou sou nada, decidido?
De qualquer forma, o outono está quase aí, uma chance, uma possibilidade de se deixar cair novamente para depois se reerguer. Quem sabe ensaiar uma nova farsa, explorar um pouco mais a introversão do meu mundinho vasto, de bichos ferozes e ervas daninhas. Ri da minha cara quem imagina o que se passa na minha cabeça a cada vez que eu observo, de longe, as felicidades alheias, os abraços que deixaram de me pertencer e às fotografias de vidas em que não sobrou mais espaço para mim. E aqueles que sabem, de fato, os anseios bobos, a minha mania de viver eternamente criando personagens fugitivos e loucamente imprevisíveis, na esperança de me corrigir. Esses, esses sim têm motivo de sobra parar rir da minha cara. 
Vez ou outra escuto uma voz: se permita, se deixa levar porque é por você, navega na própria loucura. Antes isso, que envelhecer dentro de si mesma deixando passar oportunidades. Deixando passar possibilidades. Mas e depois? Se eu me permitir, tudo o que consigo sentir é dor. Eu nunca vou estar um passo a frente do que é bom pra mim, e se houver uma chance, e aí, sou insegura demais, meus caminhos são mútuos e sinto uma paz inexplicável com a solidão, ainda que por vezes a deteste. São tempos difíceis para os inseguros. O que vem depois do verão? Não importa, o fim nada mais é do que uma possibilidade de recomeço.


sábado, 3 de março de 2012

Nos bastidores

Não se trata mais de uma solução. A questão não é simplesmente me dar por vencida, e deixar de ir à luta. O golpe fatal me atingiu, perderam-se as razões para que eu continue insistindo? O fato é que o tal do golpe fatal me coloca em saias justas todos os dias, de todas as maneiras possíveis. Eu finjo que acabou tudo até começar de novo. Eu não sou tão simplesmente limitada ao ponto de querer soluções para as minhas neuras e o eterno medo de encarar esse mundo, que por ser meu, é tão inteiramente complicado e cheio de falhas e perigos que nem eu sou capaz de enfrentar. Esse medo constante que me impede da tarefa árdua de querer ser um pouco mais corajosa, um pouco menos repreendida. É tanta roupa suja que precisa ser lavada, é tanto sentimento desconvexo solto no ar, é tanta fé depositada em juras rimadas a uma quase certeza de que, ah, nada vai dar certo.
Algumas pessoas são iguais aquela carne solta de uma unha que você roeu. Incomoda, mas você não arranca, porque dói. Eu já me conformei com a ideia de conviver com essa realidade de que, por mais exaustivamente que se tente tirar alguém da cabeça, isso não vai acontecer enquanto você não se permitir sofrer, não se deixar levar pelas ondas de calor ou de frio, não importa o tempo que faça lá fora. Por mais violentas que sejam essas ondas, é preciso enxergar que há algum equilíbrio, onde a dor e a satisfação andam de braços dados. No meio de toda essa confusão, eu aprendi que o primeiro passo para se libertar, é aceitar o problema.
Eu bem sei que minhas palavras não fazem mais sentido algum ao que quero transmitir. Era pra ser uma conversa civilizada, acabou se tornando dois corpos ocupando o mesmo espaço, contrariando todas as regras da física e da minha própria lista de regras de autodefesa. Era pra ser, de alguma forma, uma exercício de força que pudesse me ajudar a vencer minhas fraquezas, enfrentar a minha nova lucidez. Mas não. Eu sou menina, sofro de danos colaterais facilmente, sou frágil e não nasci pra encarar esse mundo sozinha. Tenho que ter alguém a quem segurar a mão. E nem sempre vou aceitar de bandeja ou muito menos perceber uma oportunidade que passa a frente desses meus olhos anestesiados de coisa fácil. Coisa fácil é brega, coisa fácil é simples, coisa fácil não existe e nem tem valor. Enquanto isso, ocupo minhas noites insones pensando em quem com certeza nunca vai reconhecer esse meu mais puro, talvez único, gesto de coragem: o de sempre estar no mesmo lugar e pronta para aqueles que talvez nunca fariam o mesmo por mim.