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sábado, 8 de setembro de 2012

(Im)previsto

Eu disse que não voltaria pra você, que não estaria lá por você. Mas, bom, foram tantas coisas que eu disse que não faria e fiz, tantas promessas que eu jurei não voltar atrás e voltei e me permiti navegar nesse mar mesmo sem saber nadar, me deixei afogar no silêncio das palavras não ditas e cair, cair fundo, direto pra tua vaidade, rumo ao-beco-sem-saída-que-você-diz-se-chamar-coração. 
 Disquei sem querer aquele número gravado na minha memória. Igual a você, impregnado, fatigando as madrugadas a fora e dizes sem saber o quê, mas te falta vergonha na cara tanto quanto por atender esta ligação impertinente no meio da noite. Tu me dás as chaves que preciso para engatar o meu senso sombrio, ou melhor, a minha falta de bom senso, o que falta para eu desatar esses nós que fazes e me provocas, garganta, estômago, não faz ideia do poder que possui sobre mim e me pisa e me possui mais do que a si mesmo e se entrega em camas e rostos e fantasias que diz amar, mas tudo o que queres é ser amado e o que tenho não te satisfaz uma gota sequer. 
 Se ainda te chamo agora é porque te preciso, se tu vens é por motivo que desconheço, pois nunca entendi suas idas e vindas, por vezes, simultâneas, que me confunde e me faz sedenta cada vez mais dessa tua água escassa que não deixa faltar, mas que não sacia. Mas se, por exemplo, tu me chamas, eu me demoro por orgulho, mas não aguento em vontade de correr para os teus braços que ora fecham ora se abrem a minha procura, porque não me deixar simplesmente ir? Afunda na tua paixão, na tua loucura e me liberta. Mas não me deixa, não me liberta desse laço, desse nó apertado que parece forca. 
 Quando baixo o tom meio enraivecida meio torpecida, quase que no intuito de ganhar por assim carícias ou a simples atenção fingida de perguntar se vai tudo bem. Mas não vai. Ao baixar o gancho do telefone, o cinzeiro já cheio, quero que já retorne a ligação e diga esqueceu do beijo de boa noite. Mas não liga. E se liga é por assim me prender mais ainda, sem me deixar uma única escapatória que consiga se desculpar da história toda eu-não-sou-sua-você-é-meu-portanto. Não me escreves por acaso, pois o papel é a lâmina, as palavras são as amarras que me seguram. Aproximo tentando fugir e desaponto-me e me doo por inteira. Do verbo doar, do verbo doer. Que espécie de encaixe sou na tua vida é um mistério, pois se não sou quem preferes conversar, muito menos com quem vai escutar seus velhos vinis e deitar-se contigo sobre o tapete da tua sala hoje à noite. Não sou dona das melhores palavras que te fazem dormir ou que te fazem alucinar. Não compartilho os teus devaneios nem nunca serei tua escolhida para tuas aventuras. Não tenho confiança no que dizes assim sem saber o quê, nem desfruto das tuas escolhas irracionais. Acho melhor admitir que não o conheço, afinal.


sexta-feira, 13 de julho de 2012

O mal que não tem raiz

Eu sei que tudo isso é um pouco difícil de processar, minha querida, mas preste bem atenção: o errado nessa história o tempo todo fui eu. Sim, já tivemos essa conversa antes, eu confessei muito do que estava preso em mim, mas nunca pude te encarar face a face e dizer aquilo que eu sempre quis dizer, mas é uma dessas coisas que ficam dentro da gente, mastigando e que engasga depois de engolido. Você provavelmente já deve saber, me conhece tão bem, mas sabe que a atitude mais correta a fazer é fingir não sentir o fogo queimando entre os vértices dos nossos sentimentos antes que nos transformemos de vez em cinzas. Naquele dia, e alguns que o antecederam, eu mal pude respirar. Porque é normal se sentir apagado de vez em quando, mas você tem esse dom de me reacender em dias de pouco sol, de me aquecer quando faz frio lá fora. Sua presença, descobri ser um vício incontrolável, algo pouco saudável porque apesar de palavras cheias de juras, eu jamais pude competir com a sua outra metade que não me amava, jamais pude me acostumar a esse nosso relacionamento unilateral. Você já pensou na força que uma pessoa fragilizada pode ter? Viver de migalhas não alimenta um homem sedento de atenção, possuir metades ao invés de por inteiro leva a ações bruscas, porém jamais sem antes terem sido provocadas. Você me seduziu para um túnel sem saída, coração, e por mais que você seja novo, maduro e reinventado, você continua indo parar na mesma ratoeira, atraído por sobras que algum rostinho bonito te deu. Hoje jurei não procurar, não ligar, não deixar mensagens na sua caixa de entrada. Hoje jurei esquecer seu endereço, me perder num bar qualquer, me embrenhar em solidão, achar alguém diferente que me faça esquecer. Hoje eu venci meu desafio, mas por que continuo me sentindo como se tivesse perdido? Talvez eu tenha deixado passar a parte de que você talvez desconheça, essa parte de mim que te ama perdidamente. Não, não só uma parte, essa é a diferença entre mim e você, porque você pensa que me enganando vai poder também se convencer de que foi só uma noite, que não vai mais acontecer. Eu fico arquitetando aqueles instantes para os meus dias intermináveis e eles se repetem até virar produto da minha imaginação. Mas se você me conhece tão bem, deveria saber. Devo ter mesmo estragado tudo, nossa relação, clara, limpa, meio sem vergonha e mais uma pitada de desejo no meio, só podia mesmo dar nisso, você sabe o quê. Quando costumava me procurar, pra contar cada parte do seu dia e pra dizer como estava decepcionada com eles, com ele, eu sofria com você por eles, por ele. Então você parou, e eu passei a te procurar só porque você não me procurava, ligar só porque você não me ligava, amar só porque você não. Preciso de motivos? Está na cara que sim, não é simples se conformar que tenhamos perdido aquilo que cresceu tão sem controle dentro de mim, algo que eu sabia desde o início que ia acabar daquele jeito, mal. Vem aqui me dizer o que quer com essa palavra “acabar” que meu coração não aprendeu a traduzir. Abre de vez esse jogo e toma uma decisão antes que eu o faça e todas as partes saiam perdendo. Acredite, eu sei me retirar quando chega a hora, percebo quando não dá mais pra mim. Seja lá quem for o culpado, nós dois vamos carregar o fardo, esse arrependimento que já posso ver nos seus olhos agora. Leia de novo nossas conversas, lembre-se das promessas que você não cumpriu, grave bem o quanto você me elevou para o topo das suas prioridades para depois me empurrar ladeira abaixo. Não me venha com discursos falso-moralistas de que eu só lembrava quando você esquecia, estive do seu lado quando tudo desmoronava sob sua cabeça e até você reconhece isso. Dê-me logo a desculpa que preciso para dar um basta nisso. Desencantou, o amor que você pensava ter acabou, e que eu posso me esquentar com outros corpos, me lamuriar da vida na companhia de outras, conseguir um novo motivo para escrever e até arranjar um relacionamento real e não essa mentira que estamos vivendo nos últimos meses. Então eu paro e penso, tão mesquinha, tão meio termo, tão vítima da própria existência, você não é tão santa quanto gostaria de ser e nem tão diabólica quanto pensa que é. No jeito que me paga de surpresa, desprevenido e sempre pronto para dar o braço a torcer. Caio nessa armadilha sem volta, um masoquista que atende às suas fantasias promíscuas. Isso soa maquiavélico suficiente pra você? Eu que sou fraco demais para reagir, pois toda vez que olho olhar de menino abandonado, cachorro sem dono, é você quem está lá para me salvar, pra impedir que eu me torture da dor que você mesma causa. É que quando eu não estava bem, era sempre a você que eu recorria, e agora que eu não estou bem por causa de você, não sei mais quem procurar. 

 Whatever happens tomorrow, we've had today.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

No divã

Tenho sérios desvios de comportamento, doutora, sei que você ouve coisas do tipo todos os dias, mas eu só soube começar se fosse assim. Isso, conserte a postura, talvez você se canse um pouco, acontece que eu ando meio assim ultimamente, como se todos estivessem cansados, fadados da minha presença. Sabe como é? Sentir que está ocupando um espaço imenso e ao mesmo tempo se sentir minúsculo dentro da própria existência? É confuso, nem sei dizer ao certo até que ponto isso é real ou simplesmente produto da minha imaginação. Acontece que eu sou muito inventiva, doutora. Conheço dezenas de pessoas, reais, até certo ponto, algumas delas me enlouquecem de verdade, mas não são elas, é uma projeção, que de certo eu que criei. Não, não aposto na carência, sou muito autossuficiente, porém sofro de transtornos de realidade, eu não confio em gente. Sim, qualquer coisa que se mova, que fale minha língua, que tenha essa capacidade de me consumir por dentro, eu não confio. Insegurança? Provavelmente, doutora, é um caso a se pensar, não faço ideia de onde vem isso, eu costumava ser mais decidida e determinada, lutar pelo que quero, mas ando tão desfocada, longe de onde meus pés firmam e não faço nada para mudar isso, deixo só a mercê dos outros, que passam apressados na rua e me empurram de um lado para outro me deslocando do centro até que eu fique isolada, largada e finalmente esquecida. Se tenho muitos arrependimentos? Ora, a maioria dos que eu deveria ter não tenho. Sinto culpa, o tempo todo por coisas que fiz, pelos estragos que causei, mas arrependimento mesmo? Deus que me perdoe, tem vezes que me pego pensando no monte de estupidez que fiz e morro querendo voltar praquele lugar, praquela pessoa só pra ter aperfeiçoado mais o momento. Talvez seja essa a definição mais exata que consegui até agora: aperfeiçoar o que já está errado para diminuir o arrependimento e aumentar a culpa mais ainda. Eu sei, doutora, estou dando nós desnecessários na minha cabeça, e você já deve estar cheia da minha falta de clareza, vou tentar ser um pouco mais objetiva. Deve ser masoquismo, pra dizer o mínimo, fico triste por vício, assisto de arquibancada o que me mata de ciúmes e nem pisco o olho, pelo contrário, finjo cínica que está tudo bem ao mesmo que por dentro está tudo desmoronando. Entende? Eu não preciso de exército nem armas para começar uma guerra, basta um litro de vodca, um coração em pedaços e a solidão do meu quarto. Às vezes eu até assisto um filme, só que não ligo a TV, deixo as cenas de horror passarem aqui dentro mesmo, sinto medo, falta e uma tristeza que ninguém dá jeito, ninguém exceto quem causou essa anarquia. O problema da dor é que você quer ser consolado por quem te machucou. Você acredita mesmo nisso? Que existem pessoas desesperadas por atenção? Existem, mas essas pobres almas sempre esperam a atenção de alguém específico, no meu caso, esse alguém tem nome, endereço e uma lista de coisas que deixaram a desejar, uma pilha de cartas e promessas falsas, uma mudança no quadro geral da minha rotina. Está dizendo que chegamos ao ponto x? Pois digo que tenho várias dessas incógnitas que não foram solucionadas na minha vida e sinto que esta é mais uma e a mais problemática de todas. É, doutora, uma bomba relógio que não tem hora marcada para explodir. Eu estou adiantando o inevitável, é isso o que eu sempre faço, você está certa. Só que tem coisas, essas que crescem dentro da gente, criam raiz e que se tornam impossíveis de serem arrancadas. Sei que estou tampando o sol com uma peneira, me dividindo entre o seguir em frente e fingir que está tudo bem e arriscar mais ainda a satisfazer meu desejo doentio de querer o que está fora do meu alcance. Acontece que optei pela segunda opção e arruinei tudo, comi o fruto proibido e estou eternamente condenada a viver no inferno que eu mesma criei. Eu poderia ter permanecido com a minha lucidez, doutora, mas a realidade não me atrai. Prefiro continuar nesse toma lá da cá do que tomar uma decisão, sim, talvez eu seja uma indecisa por natureza, já mencionamos isso, mas daí admitir o que eu sinto? Seria me autoviolar, não? Acho que estou sujeita a viver de relações unilaterais, de me provar uma louca, promíscua que coloca tudo a perder e não pensa direito. Onde acha cura pra isso? Pra qual lado eu vou se eu quiser correr atrás? É, doutora, acho que encrenquei você.

domingo, 24 de junho de 2012

Não olhe agora

(...) estou olhando pra você.

As vozes na minha cabeça pediam para que eu parasse. Estúpida, alienada, masoquista. Eu não queria deixar minha mão escorregar da sua, meus dedos percorriam cada canto seu como quem maneja uma obra prima e os cheiros me submetiam a uma estranha calmaria, dessas que o coração palpita até a batida chegar surda aos ouvidos, mas que me faz sentir uma momentânea paz. Você sorri tímido da minha falta de jeito e eu estou no céu novamente. É pretensioso da minha parte me envolver em um sonho tão abastardo. Aquilo que me tira dos eixos, que me faz caminhar em areia movediça e ainda sorrir quando está afundando. Eu não pude dormir hoje sem antes dizer aquelas palavras, peço que desculpe as minhas atitudes impensadas. Não gosto de me sentir emocional, é como se uma boa parte de mim fosse levada pelo vento e não restasse segurança alguma firmando meus pés no chão, ali, vulnerável, pronta para ser sua, gato e sapato, esquecida da real faixa em que seus pensamentos flutuam. Com quem eu estou brincando? A realidade me dói como um tapa e o meu silêncio nunca perdurou tanto. Já não posso mais competir com seu amor. Um jogo de laços findados, uma dança incoerente com troca de pares e passos improvisados que nunca parecem se encontrar, eu não quero participar mais. Só quem sai perdendo sou eu, sempre. Você é uma esperança que nasce por um único feixe de brilho falso e depois vira, todo holofote, na direção contrária e eu fico aqui na única e exclusiva intenção de assistir seu show. Você diz que o meu problema é achar que nada nunca é suficiente, só que a verdade machuca. O meu problema está na imprecisão com que você me trata e do pouco caso. Às vezes penso se você não sabe ou é porque não faz mesmo questão. Vê? A manhã está cinzenta, faz frio lá fora e aqui dentro também. Eu queria poder dizer em palavras claras, feias, porém sem resquícios de dúvidas. Não está cabendo mais ter que me esconder atrás da sua felicidade e fingir que estou participando dela. Deixei tudo isso ir longe demais. Sei que você me entende, não me leve a mal, eu também não quero você. Parece rejeição e quem dera fosse simples assim. Cada vez que fecho o olho a sua imagem é a minha maior defesa bem como uma retaguarda. É como se me tocasse a suavidade dos gestos e das suas feições tentando contar alguma piada sem graça que me fará rir de qualquer maneira e beijos que de tantas idas e vindas eu já enquadrei no espaço menos vívido da minha memória. Nós somos um exemplo perfeito de romance não realizado antes mesmo de acontecer. Nós adormecemos na vontade um do outro, em que impera a negação, o justo fato de aquilo tudo ser uma ilusão. A sua atenção é que nunca é suficiente pra mim. Eu não suporto estar tão perto e distante ao mesmo tempo e ter que conviver com os vieses da sua vida. A sua paixão invencível por quem realmente merece, o jeito como você escolhe tão bem a quem depositar confiança. Queria que você fosse mais errado, queria eu ser ter um pouco mais de razão nessa história, mas ambos sabemos que eu sou a única a não faz sentido algum. Não me agrada ser um segundo plano indispensável. Não me jogue contra a parede das suas inseguranças, não me use como instrumento de apoio para suas quedas. Não acalenta as palavras soadas ao pé do ouvido cheias de significadas e meros conteúdos vazios de autenticidade. Não está escrito em lugar algum como é difícil estar amarrado a uma impossibilidade.

terça-feira, 1 de maio de 2012

O que sempre acontece, de viés

Amontoada de cartazes e garrafas vazias, meu cômodo é aquilo que se pode esperar de um frescor adequado para o meu momento distraído, numa estranha inadequação. Aliás, eu até tragaria um cigarro agora, para dar um ar mais distraído. Atravesso de novo e de novo aquela velha avenida, vou ouvir um rock brega naquele bar de sempre, invento o meu segredo. Ele chama o garçom, pede mais uma rodada e eu me disperso na curiosidade de saber onde aquilo vai dar. Na minha já aceita condição de “outra”, concordo ficar mais um pouco, já não tenho receio nem uma gota de dignidade. Se meu julgamento final for dentro da minha cabeça, estou eternamente condenada. A fraqueza não me deixa reagir e eu recaio aonde quer que os braços dele apontem, isso é verdade. Invento desculpas pra mim e pra ele de porque eu não vou embora, minto que preferia estar em qualquer outro lugar. Atenho-me a necessidade de dizer o que não deve ser em alguma hipótese dito, não por mero pudor, mas por aquilo tudo já ser um assunto morto enterrado e que ninguém ali iria dançar depois da música já ter terminado. Enquanto isso, ele tenta descobrir meus segredos, por que razões não sei. Pode ser por verdadeiro interesse em desvendar essa minha alma que erra em sentir ou apenas para me ganhar com seus falsos encantos e ter alguém para esquentar sua cama hoje à noite. Claro que ele pode escolher algumas amandas ou letícias por aí, e a dúvida é que me prende àquela cadeira em sua frente enquanto ele conta qualquer história sem valor e enche sem medo meu copo de mais vinho. Estou um pouco ébria e sei que meu segredo é mentir desesperadamente que não gosto dele. Como se não aliviasse um pouco o peso do mundo estar ali desfrutando daquela companhia, como se minha vontade não fosse de que ele surpreendesse com qualquer gesto brusco que me tirasse o fôlego. Gosto do jeito dele ignorar o celular tocando, mas sei quem o procura e isso me traz de volta a realidade. Estou tomando proveito de rédeas alheias em que não posso controlar. Será o vinho? E me aborreço por vício. Congelo de ciúmes e a primeira reação é o silêncio. Depois a súbita ameaça de ir embora. A minha insegurança o faz rir e dizer que não passo de uma menina boba. Não passo de uma menina boba, angustiada, de punho e mãos fracas que não sabe tocar seu coração nem desatar seus nós. A história se repete. Uma semana sendo amante de meninas, mulheres, amando-as, despenteando cabelos e sentimentos. Toda essa voracidade vem parar sempre no mesmo porto. Uma sexta-feira cinzenta, com uma estranha conhecida, que pensa que conhece, mas não a vê. Uma noite de música velha e vapores de bebidas baratas, caminhadas ao vento frio noturno sob calçadas enlameadas de fumo, resquício de chuva e buracos. Ele canta uma canção que me toca e envolve. Uma canção que quase me faz acreditar e aceitar que o amo, mesmo em toda informalidade existente ali naquele pequeno espaço entre nós dois. De repente sou tomada pela esquisita satisfação de estar onde queria estar. Ele me tocando, eu acoberta de um abraço que me dá a sensação de ser de verdade, aquilo, aquela confusão. Fui seduzida de novo para aquela ratoeira e me deixo enganar. Estou esperando a qualquer momento uma renúncia, mas ele não me machuca, ele continua me fazendo crer naquela realidade inventada. Permanece me suportando, não recusa o abraço. Eu sinto uma febre, medo e me vejo apática. Ele finge que acredita, mas não solta, não alivia essa corda envolta do meu pescoço e demonstra indisposto a me deixar ir. Dessa vez sou eu que finjo que acredito. Sorrio meio exagerada, o álcool e todo o resto já me subiu a cabeça. Vou embora, esqueço o celular desligado dentro da bolsa, perco as chaves de casa, abandono a cidade e percebo que não queria te deixar sem antes te dizer tudo isso. Que nem eu sei. Encontro ele vazio, olhar distante na janela do meu quarto. A batida violenta da porta deve tê-lo chamado atenção, pois ele se virou pra mim ao mesmo que eu encarava o chão numa tensão, uma exustão imensa. A indecisão de não saber se queria sair fugindo daquele inverno que se fez no meu cômodo ou de ficar e vê-lo incendiar o que ainda me sobrava, amansar uma antiga fera com beijos enternecidos. Eu não queria estar em outro lugar, imagino o final daquela noite em complacente perfeição e tomo a última taça de vinho num gole só. O peixe morre pela boca.

sábado, 28 de abril de 2012

A terceira pessoa

Ela é sua colega de classe, e dependendo pra onde você olha, ela é em parte uma total desconhecida, personagem principal da mais incrível história do seu verão passado. Ela é amante disfarçada de amiga e pode ser o contrário também. Um medo comum em que se tem ao conhecer essa pequena criatura imprevisível e ao mesmo tempo encantadoramente perdida é de que ela saia caminhando entre as pessoas a cada piscar de olhos, a cada mera distração. Ela some. Por que ela insiste em omitir sua vontade? Por que não se cansa de dançar no ritmo da música se nem ela gosta daquele som enjoativo que amolece os sentidos? Espera por uma canção diferente, será? Atrás de um sentimentalismo incondicional, estava ali alguém que era fácil esquecer, até que fosse embora de vez. Ela não era forte, pelo contrário, era fraca demais e se satisfazia com o pouco que lhe era dado. Sua coragem de virar as costas pro mundo sumia toda vez que uma pessoa pegava em seu ombro e dizia pra ficar. Fique mais um pouco. Ela por um instante esquecia do seu desgaste interior e ficava e alimentava aquele monstro que tinha fome da sua presença, que quando se via longe, mordia com força lá dentro pedindo por mais doses de você, aquele pedaço de carne que ela não podia roubar. Falou certa vez para esse alguém que era de uma segunda pessoa, que ali ela repousava uma paixão imensa. Ela disse “eu quero você perto de mim, sempre”. Estava na cara que nunca havia pronunciado aquelas palavras antes. Ela afastou um pouco aquela imagem para não se ver diante da vergonha. Não olhou nos olhos. Ela não olhava nos olhos, um tipo de timidez alternativa, que se olhasse, isso a denunciava e ela prezava sua lucidez. E perdia, a timidez e a lucidez, bastava pisar em solo desconhecido. Nessa de brincar de dizer a verdade, se fez ali uma barreira que causou exaustão por criar laços ilusórios com as pessoas e direta ou indiretamente receber nada em troca. Ela entendia que o mundo às vezes não cabia as possibilidades em que ansiava, mas sufocava, fragilizava, essas coisas, essa impossibilidades da vida. De tanto colecionar experiências, acumulou uma carência gigantesca de base, de conforto, de alianças simples que não façam o mundo cair sob sua cabeça. Ela não guarda, nem aprende nunca. Acumula. E nunca conta pra ninguém. Sente e é tomada de pudor dentro da própria realidade, não esquece fácil e esse é seu maior pecado. 


Would you leave me if I told you what I've done? 
And would you leave me if I told you what I've become? 
'Cause it's so easy to say it to a crowd 
But it's so hard, my love, to say it to you out loud

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Apenas mais uma de amor

Devo dizer que eu não esperava e muito menos tinha a intenção de voltar a escrever pra alguém tão cedo. Peço desculpas por ser assim tão repentina, mas é que nunca fui de controlar meus impulsos. Sei que isso pode assustá-lo ou até mesmo criar uma impressão errada, mas eu precisava vir correndo pra casa e achar uma maneira de agradecer. Não sei quando vamos nos ver de novo, espero que em breve. Fazia tanto tempo que eu não me divertia com alguém. Vendo desse jeito parece que estou maluca, que acabei de virar alguns copos de bebida, só que pelo contrário. Eu poderia até tentar, pra ver se me dava coragem, porque empolgação não me falta. A vontade que tenho é de ir bater na sua porta e levar aquele vinho que você gostou naquela última noite. Pode parecer entranho o quanto for, mas gostaria que soubesse do bem que me fez, da vitalidade que vem me trazendo sua companhia. Coisa da minha imaginação? Pode até ser, mas não me importo nada, nadinha. Não me importo se não é assim com você, não me importo se você é dono de um jeito fechado e um comportamento tanto fascinante quanto misterioso. Não quero aproximação corriqueira e alas abertas pra decepção. Quero continuidade, quero nossas intimidades se tocando. Julgamentos? Fodam-se os julgamentos. Quero sentimento deslumbrado. A surpresa de um encontro e a espera de um novo dia. Quero respiração acelerada e camas bagunçadas. Demonstrações indiscretas de ciúme desesperado e desalento por não saber lidar com seu pouco caso. É isso que você me faz, menino bobo. Mas eu gosto. É bom ter essa insensatez, essa vontade solta de viver outra vez. Eu gosto de me sentir esse poço de mau caminho, e você, de ir fundo nele. É por isso que me sinto no dever ridículo de agradecer. Eu deveria? Soa mais como um pedido para que você não se perca. E se for se perder, que não seja de mim. Se for se perder, que seja comigo, que fique claro. 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Apesar de

As minhas mãos sobre as suas fraquejaram, a conversa afiou e no embaraço da espera, até meu coração indeciso quis enfim descansar. Numa dança incoerente, onde a gente nunca sabia que passos seguir, eu pude enxergar que talvez tivesse mesmo chegado a hora de enfrentar a realidade que me separava da sua. Não somos mais aquelas crianças que não sentiam peso nem culpa por serem irresponsáveis, por se embalarem em ruas cinzentas e se misturar na noite embriagados em meio a tanto cativo e cervejas baratas. Não carrego mais a mesma bagagem, sei tão pouco da sua vida e só nos aproximamos vezenquando numa esquina após fazermos uma escolha errada, depois de trancafiarmos algum sentimento e perdermos o controle das situações que a vida nos impõe. Sempre sendo tão pouco generosa com a gente, ela, a Vida. Desse jeito destacado, porque ela, a Vida, toda Ela, tem a ver com Você. Você maiúsculo, em letras garrafais e neon. Inevitavelmente, por mais que não me importe, por mais que a razão grite pra ter sua liberdade, é tão pouca a paz que me permito ter. Falta coragem pra dizer que nunca mais, falta pulso pra admitir que o passado só é passado por um motivo. Falta parar de lembrar datas, de tecer lembranças e acomodar esse eterno estado de depreciação. E todas as vezes que senti falta, que chorei e me odiei por ainda me atrever a ter saudade. As suas frases cheias de adeus ou na falta deles, eu deixei de me importar. Que te ver em dias não tão amistosos pode ser estranho, doloroso e que tenha no ar a impotência de um último encontro. Posso criar uma farsa bem ousada de que não me incomoda mais seus silêncios e que não vejo seus gestos como uma tentativa de chamar minha atenção. É certo que não dançamos mais a mesma música, nem estamos mais nas mesmas fotos, nossas vidas podem estar reviradas pro lado contrário, mas continuo a pensar que de alguma forma meio telepática, espiritual ou astral estamos interligados nessa relação incorrigível.

domingo, 4 de setembro de 2011

Eu pires, você prato

Foi em um dia claro, sem nenhuma expectativa, desses dias felizes que não imaginamos que poderiam mudar nossas vidas. Foi em um dia assim que te conheci. Não, não estou fantasiando, nem criando situações só pra ficar bonito. Foi exatamente dessa forma que você começou a fazer parte da minha história.
Você foi chegando devagar, sem que eu percebesse, foi ocupando todos os meus espaços. Não sei se você se lembra das tardes que saíamos sem destino só porque ficar junto era bom demais. Eu ia ansiosa te ver, já imaginando tudo que tinha pra me contar. Você dizia que viver em casa era difícil e que estar a par de problemas que não os seus era um tormento. Eu gostava de ouvir você reclamando que seus casos anteriores foram perda de tempo e que o maior erro que alguém pode cometer é esperar que alguém a mais venha e resolva sua vida. Fui aprendendo a deixar de lado minhas manias antiquadas, enquanto de mansinho você começava a abandonar a saída de sexta à noite pra ficar mergulhado na própria solidão. Eu estava quase chegando perto de ser a pessoa que sempre temi quando criança, mas por desejar estar do seu lado, fui afastando meus requintes e de lá do meu barzinho de domingo com os amigos jogando conversa fora, vez e outra recordava da vez que você me prometeu uma caminhada na praia. Gostei do seu jeito singelo de recitar O tempo rodou num instante nas voltas do meu coração imitando Chico Buarque e até me fez chorar baixinho algumas vezes ao lembrar daquele dia que você cantou no meu ouvido um trecho de Caetano me chamando de Leãozinho.
Você, requisitado por tantos outros e com sua mania de maturidade foi se perdendo cada vez mais no seu mundinho. Nem cartas de amor eu recebo mais. Nem uma única explicação de que sua estada era passageira e que só veio aqui pra mudar meus roteiros e adeus, fique bem, esteja bem. Nada. Eu, obrigada a suportar nossa distância assustadora, fui me tornando tão você que não consigo mais reconhecer o rosto que me olha no espelho. Você, sem saber de mim deve adivinhar os meus temores em sempre encontrar um resquício seu em qualquer lugar. Eu, não encontro nenhuma maneira de simplesmente jogar no lixo um passado, que apesar de não querer me deixa seguir em frente, foi parte, como é que você dizia mesmo? De uma história pra contar.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Não mais do que espera


Queria falar sobre a saudade que sinto de você. Quando não tenho muito mais o que pensar, se não você colorindo meus espaços vagos de qualquer coisa boa que a vida tenha me dado, desperto em mim algo como um desejo enorme de te ver de novo aqui brincando de ser meu. Meu bem, não sabe como é difícil vê-lo partir sem saber se vou ter notícias suas, sem me dar nenhum juramento de que haverá volta. Hoje tenho uma coleção de recordações dos nossos últimos encontros sem despedida e não importa quantas vezes eu já tenha o visto ir, desprezando o meu pesar, estarei sempre aqui esperando a chance de um novo retorno.
Nunca te pedi pra ficar, te neguei a mim mesma, só que alguma coisa aqui dentro tá pedindo sua chegada para que ocupe todos espaços e eu não posso mais impedir, meu bem. Não consigo mais deixar de lado, mesmo depois de tanto sofrimento, de tanta discórdia e assuntos mal resolvidos. Simplesmente não encontro mais sentido em passar esses dias convivendo com a sua ausência e o pensamento toda hora em você, me fazendo querer falar das suas coisas, das suas histórias. É difícil resistir e não voltar atrás quando me apego a essas vontades. Sinto que estou mentindo por não dizer que tudo o que eu quero é correr em seu destino e cair de vez em suas mãos.
Em mim vive uma esperança fatigada de que um dia eu reviva com segurança as emoções que só tenho estando ao seu lado. Só que hoje estou sempre atormentada por perceber uma áurea sombria vindo daí, de você. Não quero te ver triste, meu bem. Não quero topar com você tão cabisbaixo, tão como eu.  Nesses dias ensolarados de setembro, que vago por aí imaginando o que te ocorre no pensamento nesse instante, queria apenas te dizer que você não precisa ficar sozinho se não quiser.
"Confesso que me dá uma saudade irracional de você. E tenho vontade de voltar atrás, de ligar, de te dizer mil coisas, e cair em suas mãos."

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O que acontece no escuro

Quando nem os ponteiros do relógio fazem mais diferença no meu dia e nem as pessoas parecem ter algum valor, me pego vagando em memórias soltas, em lembranças proibidas do que nunca aconteceu. Não é que eu queira ficar estragando e maliciando as únicas recordações que tenho de nós. Culpo-me imensamente em transformar algo puro e bom em um tipo de alicerce corrompido, sujo e que alimenta meu lado mais sombrio.
 Chego a conclusão de que o mais certo é inventar algumas desculpas juvenis do tipo Isso-é-errado ou até mesmo fazer-me perguntar por que eu ainda estou nessa história. Mas o que devia ser feito mesmo era eu desejar que tudo se foda, porque ele-não-dá-a-mínima-pra-mim então por que ainda estou aqui parada insistindo?
Já perdi a conta de quantas vezes eu já tentei assumir esse sentimento – pra mim mesma. Não é que eu esteja louca, ou algo assim, mas o suficiente pra me fazer querer esperar o quanto tempo for para alguma retribuição de afeto, um carinho e se eu estiver num daqueles dias de mais pura carência, desejo não menos do que uma noite a sós com silêncio de palavras e respirações aceleradas. Quero que me falte o fôlego, se for preciso, quero tirar o seu também. Então logo te imagino perguntando aonde foi parar o meu juízo. Cadê? Também não sei pra onde foi, só que tenho a impressão de que foi você quem levou, junto com todo resto de virtude que me restava.
Que espécie de garota mais clichê eu sou. Sonhando com a paixão impossível e perseguida pelos tremores que causam apenas na alusão de serem imaginadas. Vem de lá essa conspiração, não me responsabilizo. Na verdade, eu tô preferindo considerar sua culpa, você me deu todas razões mais que necessárias para acreditar em nós. Não que eu quisesse crer que as chances desse nosso caso ir à frente poderiam se firmar e não é que eu esteja preocupada com o que pensam lá fora. Apenas fomos traídos pelos nossos estúpidos sentimentos. Entende onde quero chegar? Nós somos as vítimas aqui. Estou falando em “nós” sem mesmo me dar conta que o que está em questão sou eu, eu e meu gravíssimo problema em (te) querer, o que está fora do alcance.
Talvez isso passe. Ah, com certeza vai passar, esse não é o meu, não é o nosso perfil. Essa ligação transtornada que repentinamente se tornou uma angústia, um peso a ser carregado, que depois não passará de um passado triste. Pelo menos é o que espero. Não posso conviver pra sempre desse jeito, plantando essa sementinha de desavença aqui dentro. Seria um desvio enorme de conduta, um desfalque totalmente irracional. Até pra mim.

sábado, 20 de agosto de 2011

Uma longa estrada de (des) ilusões

Tudo era apena uma brincadeira que foi perdendo o controle aos poucos e pedindo sempre mais. E quando não adiantava nem mesmo as várias brigas internas que tive tentando me convencer que não valia à pena, que aquela relação não tinha espaço para mais nada e que, claro, eu acabaria me machucando. Eu simplesmente mandei minha razão catar coquinho. Você podia não notar, mas nos corredores eu estava te seguindo, e nas conversas participava só pra ouvir o que você tinha a dizer, escutar as bobagens que me faziam rir. Nos lugares, eu estava em praticamente todos, você instigava minha atenção e eu retribuía até com um pouco de excesso. Teoricamente te dei todas as chances possíveis de chegar e pedir pra ser mais do que apenas um objeto de minha cobiça e admiração. Não me poupei em ignorar seus eternos descasos como uma boa e paciente menina, sonhando que tinha encontrado finalmente alguém a sua altura, um rapaz que agradava em ser presente e tinha uma boa conversa, que possuía a gentileza dos gestos e uma educação tão apreciada por todas outras iludidas como eu que vivem ao seu redor. Como não se encantar, como não querer levar pra casa e guardar num cantinho seguro alguém que nasceu com todas as qualidades de um cara que eu sempre quis ter. No entanto, meus pressentimentos que outrora havia tido se cumpriram, você me tinha não mais do que mais uma em sua vida. Deixei passar todos os vestígios que faziam de você um mero reprimido, alguém que foge de relacionamentos e da seriedade dos próprios sentimentos. E vai seguindo nessa sua exaustiva fuga em não me aceitar, porque veja bem, menino, se eu estou aqui é porque você me deu motivos para estar. Nunca fui do tipo que se ilude fácil, não nessas condições. Simplesmente já não vejo mais cabimento em esperar o milagroso dia em que você vire homem e assuma de vez o que quer. Sua indiferença me cansou e você pode até não entender meus pretextos em virar a cara toda vez que tenta limitar minhas atenções, quem sabe pra levantar seu ego. Talvez tenha sido esse o meu significado esse tempo todo. Pra te vangloriar, pra te fazer suportar a própria insensibilidade. Não vou dizer que tenho outros a quem recorrer, não vou te desejar mal apenas por não corresponder minhas lamúrias, apenas te peço que não provoque mais minhas emoções, não me dê mais razão pra te odiar, porque de você eu só aceito reciprocidade quanto aos meus sentimentos ou distância. Como sei que a primeira está fora do seu alcance, então não reclame por eu te ignorar e te aconselho a não entrar no meu joguinho. Perceba que minha estupidez sumiu com toda afabilidade que tinha por você. Se for pra ser parte da minha história, que seja herói ou vilão, porque de ser atriz principal eu já estou cheia.

"Ou me quer e vem, ou não me quer e não vem. Mas me diga logo pra que eu possa desocupar o coração."

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Primeira pessoa do plural, no passado

Estive lendo cartas velhas, textos antigos e vendo lembranças passarem rapidamente, sem pena, comecei a lembrar. Nossa inocência, aquela ausência bonita de maturidade. Ríamos das maiores bobagens, e o melhor de tudo, sem culpa nenhuma. Não era necessária explicação, nem para nós mesmos, afinal, qual é o propósito em se explicar? Éramos tão diferentes, bobos, querendo algum espaço um na vida do outro e a gratidão que dava quando esse espaço era tomado, com sorrisos sinceros e abraços que emanavam uma espécie de segurança.  Éramos íntimos, de passar a madrugada inteira trocando confissões, fazendo piada até mesmo das nossas próprias desgraças e qualquer detalhe que acontecia era preciso ser contado o mais depressa possível, era uma obrigação que confortava. Com o tempo, fomos criando uma tipo de similaridade afetiva, dessas que nos fazia ouvir as mesmas músicas, ler os mesmos livros, ter as mesmas conversas e até ter a mesma opinião a respeito de tudo.  Sem contar das tantas vezes que bati de frente com qualquer um que tentasse se indispor contra nós, não ligava a mínima se aquilo ia me afastar de todos que até então eu amava. Éramos inconsequentes. Quando nos metíamos em confusão só porque queríamos um motivo diferente pra rir no dia seguinte e a minha lista de primeiras vezes que aconteceram nas poucas vezes que nos encontramos. No meio da semana faltávamos compromissos, adiávamos tudo só para sentarmos em qualquer uma dessas mesas de bar e tomar alguns goles de bebida. No final da noite, quando já estávamos cansados de falar mal daquela galera ousada que não curtíamos ou de reclamar das nossas próprias vidas, tínhamos o ombro um do outro para se recostar e só aí começar a pensar numa maneira de voltar pra casa. Mas não importava, porque tínhamos algo que ninguém mais tinha. Tínhamos um ao outro. 

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Nada feito

Passa despercebido qualquer afeto que tenha sido nutrido da sua parte. Não consigo me convencer, embora secretamente deseje ter sua atenção toda pra mim. Se finge não se importar ou realmente não se importa, tudo é motivo para me deixar, de certa forma, meio paranóica. Já fugi e voltei várias vezes, porque você sempre me fez crer que havia uma chance para nós e tantas vezes fiquei a um passo da ilusão. Então a história distorce e mais uma vez me vejo em direção a um oásis imaginário.
Queria ter uma provação, mas sei que se eu for esperar por uma atitude obstinada vir de você, corro o risco de ficar louca. Portanto nem espero, apesar de querer infinitamente uma demonstração pouco mais sólida. O que é contraditório, e claro que não podia ser diferente vindo de alguém tão cheio de faces e humores. Por Deus, como odeio isso! Odeio acima de tudo o jeito que seu temperamento consegue me atingir de tal maneira. É desconcertante ser manipulada assim e nem mesmo poder dar resposta quando perguntam “E ele?”. A resposta é sempre “Não sei”. E essa incerteza diminui um pouquinho quando de repente você vem me intimidar com essa proximidade perturbadora. Mas parece aumentar dez vezes quando se afasta de súbito, sem nunca assumir o que quer.
Vou levando esses silêncios com uma espécie de martírio e igualmente calada, tento convencer que esses sentimentos imaturos não é coisa de gente grande. Você não é coisa de gente grande e eu já sou feita, mereço gente feita – pra mim. E mesmo que eu invente mil motivos que o torne exclusivo, especialmente pra mim, sei que de fato, Alguém de Verdade você nunca vai ser e não é meu legado perder ainda mais tempo tentando ensiná-lo.