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domingo, 23 de setembro de 2012

Teatro dos desafetos



A razão é como uma equação
De matemática... tira a prática
De sermos... um pouco mais de nós!
Que o teu afeto me afetou é fato
Agora faça me um favor



Não pensar é uma matéria que venho estudando arduamente, mas que é, sobretudo, dificílima. Quando penso que repenso que tudo caminha para o lado contrário, será se acha, no fim, que talvez essa seja a maneira que a vida encontrou de me mostrar o que realmente importa? Eu não gosto do que é mostrado, eu faço de desentendida e inauguro todo dia uma definição de mim mesma para mostrar ao resto do mundo. Da realidade a utopia só existe um passo, dançamos? 
 Ontem o tempo esfriou, as coisas esfriaram e eu fiquei sentada boba alienada apreciando meu último suspiro gélido antes de me entregar, impensavelmente, para o mal. Quando falam sobre “mal”, impossível não pensar na cor, na ebriedade, no pedido de socorro. Impossível não se distrair ao mexer com fogo, eu me queimei. O ponteiro do relógio faz sua melodia constante e tediosa ao mesmo que meu coração faz engano, desengano, engano, des (...) até que ponto fingir ser algo que não sou pode me levar? Sozinhos nunca somos os mesmos pra nós assim como somos alguém diferente para cada um e é piegas, assim como o amor, tudo que tem a ver com a mentira, é piegas. É complicado se perder dentro de si e só se achar numa outra alma e ela nem saber disso. 
 Mas não adianta quanta ajuda seja oferecida, ou quanto seu coração ainda se predispor ao looping infinito da não correspondência, pois há quem diga que Drummond foi são e verdadeiro ao escrever Quadrilha, assim como há quem diga, por exemplo, que a primavera é a estação das flores. Já dei você tantas vezes como causa perdida que inevitavelmente perdeu o brilho, perdeu a confiança, se exauriu minha incontestável admiração, a única coisa que ficou foi essa sensação de lâmpada queimada, ferrugem, essa coisa torta a que chamam de Amor Obsoleto. 
 Hoje acordei chorando, mas sequer lembrei do sonho. Chorava com fervor, podia facilmente ser um pesadelo. Minha mãe pedia por mim, pude ouvir gritos desesperados e eu continuei sofrendo aquele pesadelo por um bom tempo. Não sei bem por que, mas deve ser mania da alma da gente se amargurar por não verdades e idolatrar a ilusão. Do mesmo jeito que você finge pra mim e ele finge pra você e assim por diante. 
Eu não tenho mais fé nem coragem de ainda jogar verdades duma maneira de te fazer perceber, porém eu mato o peixe pela boca, mas não fico engasgando esses meus discursos flagelados que repudiam toda essa farsa e ainda param e protestam pedindo mais. Chega a ser brutal a forma como reprimem uma antiga fera inconsolável com migalhas de pouco em pouco de dúvida a dúvida. Você acha que transborda, mas não preenche uma gota sequer.

sábado, 8 de setembro de 2012

(Im)previsto

Eu disse que não voltaria pra você, que não estaria lá por você. Mas, bom, foram tantas coisas que eu disse que não faria e fiz, tantas promessas que eu jurei não voltar atrás e voltei e me permiti navegar nesse mar mesmo sem saber nadar, me deixei afogar no silêncio das palavras não ditas e cair, cair fundo, direto pra tua vaidade, rumo ao-beco-sem-saída-que-você-diz-se-chamar-coração. 
 Disquei sem querer aquele número gravado na minha memória. Igual a você, impregnado, fatigando as madrugadas a fora e dizes sem saber o quê, mas te falta vergonha na cara tanto quanto por atender esta ligação impertinente no meio da noite. Tu me dás as chaves que preciso para engatar o meu senso sombrio, ou melhor, a minha falta de bom senso, o que falta para eu desatar esses nós que fazes e me provocas, garganta, estômago, não faz ideia do poder que possui sobre mim e me pisa e me possui mais do que a si mesmo e se entrega em camas e rostos e fantasias que diz amar, mas tudo o que queres é ser amado e o que tenho não te satisfaz uma gota sequer. 
 Se ainda te chamo agora é porque te preciso, se tu vens é por motivo que desconheço, pois nunca entendi suas idas e vindas, por vezes, simultâneas, que me confunde e me faz sedenta cada vez mais dessa tua água escassa que não deixa faltar, mas que não sacia. Mas se, por exemplo, tu me chamas, eu me demoro por orgulho, mas não aguento em vontade de correr para os teus braços que ora fecham ora se abrem a minha procura, porque não me deixar simplesmente ir? Afunda na tua paixão, na tua loucura e me liberta. Mas não me deixa, não me liberta desse laço, desse nó apertado que parece forca. 
 Quando baixo o tom meio enraivecida meio torpecida, quase que no intuito de ganhar por assim carícias ou a simples atenção fingida de perguntar se vai tudo bem. Mas não vai. Ao baixar o gancho do telefone, o cinzeiro já cheio, quero que já retorne a ligação e diga esqueceu do beijo de boa noite. Mas não liga. E se liga é por assim me prender mais ainda, sem me deixar uma única escapatória que consiga se desculpar da história toda eu-não-sou-sua-você-é-meu-portanto. Não me escreves por acaso, pois o papel é a lâmina, as palavras são as amarras que me seguram. Aproximo tentando fugir e desaponto-me e me doo por inteira. Do verbo doar, do verbo doer. Que espécie de encaixe sou na tua vida é um mistério, pois se não sou quem preferes conversar, muito menos com quem vai escutar seus velhos vinis e deitar-se contigo sobre o tapete da tua sala hoje à noite. Não sou dona das melhores palavras que te fazem dormir ou que te fazem alucinar. Não compartilho os teus devaneios nem nunca serei tua escolhida para tuas aventuras. Não tenho confiança no que dizes assim sem saber o quê, nem desfruto das tuas escolhas irracionais. Acho melhor admitir que não o conheço, afinal.


segunda-feira, 9 de julho de 2012

No divã

Tenho sérios desvios de comportamento, doutora, sei que você ouve coisas do tipo todos os dias, mas eu só soube começar se fosse assim. Isso, conserte a postura, talvez você se canse um pouco, acontece que eu ando meio assim ultimamente, como se todos estivessem cansados, fadados da minha presença. Sabe como é? Sentir que está ocupando um espaço imenso e ao mesmo tempo se sentir minúsculo dentro da própria existência? É confuso, nem sei dizer ao certo até que ponto isso é real ou simplesmente produto da minha imaginação. Acontece que eu sou muito inventiva, doutora. Conheço dezenas de pessoas, reais, até certo ponto, algumas delas me enlouquecem de verdade, mas não são elas, é uma projeção, que de certo eu que criei. Não, não aposto na carência, sou muito autossuficiente, porém sofro de transtornos de realidade, eu não confio em gente. Sim, qualquer coisa que se mova, que fale minha língua, que tenha essa capacidade de me consumir por dentro, eu não confio. Insegurança? Provavelmente, doutora, é um caso a se pensar, não faço ideia de onde vem isso, eu costumava ser mais decidida e determinada, lutar pelo que quero, mas ando tão desfocada, longe de onde meus pés firmam e não faço nada para mudar isso, deixo só a mercê dos outros, que passam apressados na rua e me empurram de um lado para outro me deslocando do centro até que eu fique isolada, largada e finalmente esquecida. Se tenho muitos arrependimentos? Ora, a maioria dos que eu deveria ter não tenho. Sinto culpa, o tempo todo por coisas que fiz, pelos estragos que causei, mas arrependimento mesmo? Deus que me perdoe, tem vezes que me pego pensando no monte de estupidez que fiz e morro querendo voltar praquele lugar, praquela pessoa só pra ter aperfeiçoado mais o momento. Talvez seja essa a definição mais exata que consegui até agora: aperfeiçoar o que já está errado para diminuir o arrependimento e aumentar a culpa mais ainda. Eu sei, doutora, estou dando nós desnecessários na minha cabeça, e você já deve estar cheia da minha falta de clareza, vou tentar ser um pouco mais objetiva. Deve ser masoquismo, pra dizer o mínimo, fico triste por vício, assisto de arquibancada o que me mata de ciúmes e nem pisco o olho, pelo contrário, finjo cínica que está tudo bem ao mesmo que por dentro está tudo desmoronando. Entende? Eu não preciso de exército nem armas para começar uma guerra, basta um litro de vodca, um coração em pedaços e a solidão do meu quarto. Às vezes eu até assisto um filme, só que não ligo a TV, deixo as cenas de horror passarem aqui dentro mesmo, sinto medo, falta e uma tristeza que ninguém dá jeito, ninguém exceto quem causou essa anarquia. O problema da dor é que você quer ser consolado por quem te machucou. Você acredita mesmo nisso? Que existem pessoas desesperadas por atenção? Existem, mas essas pobres almas sempre esperam a atenção de alguém específico, no meu caso, esse alguém tem nome, endereço e uma lista de coisas que deixaram a desejar, uma pilha de cartas e promessas falsas, uma mudança no quadro geral da minha rotina. Está dizendo que chegamos ao ponto x? Pois digo que tenho várias dessas incógnitas que não foram solucionadas na minha vida e sinto que esta é mais uma e a mais problemática de todas. É, doutora, uma bomba relógio que não tem hora marcada para explodir. Eu estou adiantando o inevitável, é isso o que eu sempre faço, você está certa. Só que tem coisas, essas que crescem dentro da gente, criam raiz e que se tornam impossíveis de serem arrancadas. Sei que estou tampando o sol com uma peneira, me dividindo entre o seguir em frente e fingir que está tudo bem e arriscar mais ainda a satisfazer meu desejo doentio de querer o que está fora do meu alcance. Acontece que optei pela segunda opção e arruinei tudo, comi o fruto proibido e estou eternamente condenada a viver no inferno que eu mesma criei. Eu poderia ter permanecido com a minha lucidez, doutora, mas a realidade não me atrai. Prefiro continuar nesse toma lá da cá do que tomar uma decisão, sim, talvez eu seja uma indecisa por natureza, já mencionamos isso, mas daí admitir o que eu sinto? Seria me autoviolar, não? Acho que estou sujeita a viver de relações unilaterais, de me provar uma louca, promíscua que coloca tudo a perder e não pensa direito. Onde acha cura pra isso? Pra qual lado eu vou se eu quiser correr atrás? É, doutora, acho que encrenquei você.

domingo, 24 de junho de 2012

Não olhe agora

(...) estou olhando pra você.

As vozes na minha cabeça pediam para que eu parasse. Estúpida, alienada, masoquista. Eu não queria deixar minha mão escorregar da sua, meus dedos percorriam cada canto seu como quem maneja uma obra prima e os cheiros me submetiam a uma estranha calmaria, dessas que o coração palpita até a batida chegar surda aos ouvidos, mas que me faz sentir uma momentânea paz. Você sorri tímido da minha falta de jeito e eu estou no céu novamente. É pretensioso da minha parte me envolver em um sonho tão abastardo. Aquilo que me tira dos eixos, que me faz caminhar em areia movediça e ainda sorrir quando está afundando. Eu não pude dormir hoje sem antes dizer aquelas palavras, peço que desculpe as minhas atitudes impensadas. Não gosto de me sentir emocional, é como se uma boa parte de mim fosse levada pelo vento e não restasse segurança alguma firmando meus pés no chão, ali, vulnerável, pronta para ser sua, gato e sapato, esquecida da real faixa em que seus pensamentos flutuam. Com quem eu estou brincando? A realidade me dói como um tapa e o meu silêncio nunca perdurou tanto. Já não posso mais competir com seu amor. Um jogo de laços findados, uma dança incoerente com troca de pares e passos improvisados que nunca parecem se encontrar, eu não quero participar mais. Só quem sai perdendo sou eu, sempre. Você é uma esperança que nasce por um único feixe de brilho falso e depois vira, todo holofote, na direção contrária e eu fico aqui na única e exclusiva intenção de assistir seu show. Você diz que o meu problema é achar que nada nunca é suficiente, só que a verdade machuca. O meu problema está na imprecisão com que você me trata e do pouco caso. Às vezes penso se você não sabe ou é porque não faz mesmo questão. Vê? A manhã está cinzenta, faz frio lá fora e aqui dentro também. Eu queria poder dizer em palavras claras, feias, porém sem resquícios de dúvidas. Não está cabendo mais ter que me esconder atrás da sua felicidade e fingir que estou participando dela. Deixei tudo isso ir longe demais. Sei que você me entende, não me leve a mal, eu também não quero você. Parece rejeição e quem dera fosse simples assim. Cada vez que fecho o olho a sua imagem é a minha maior defesa bem como uma retaguarda. É como se me tocasse a suavidade dos gestos e das suas feições tentando contar alguma piada sem graça que me fará rir de qualquer maneira e beijos que de tantas idas e vindas eu já enquadrei no espaço menos vívido da minha memória. Nós somos um exemplo perfeito de romance não realizado antes mesmo de acontecer. Nós adormecemos na vontade um do outro, em que impera a negação, o justo fato de aquilo tudo ser uma ilusão. A sua atenção é que nunca é suficiente pra mim. Eu não suporto estar tão perto e distante ao mesmo tempo e ter que conviver com os vieses da sua vida. A sua paixão invencível por quem realmente merece, o jeito como você escolhe tão bem a quem depositar confiança. Queria que você fosse mais errado, queria eu ser ter um pouco mais de razão nessa história, mas ambos sabemos que eu sou a única a não faz sentido algum. Não me agrada ser um segundo plano indispensável. Não me jogue contra a parede das suas inseguranças, não me use como instrumento de apoio para suas quedas. Não acalenta as palavras soadas ao pé do ouvido cheias de significadas e meros conteúdos vazios de autenticidade. Não está escrito em lugar algum como é difícil estar amarrado a uma impossibilidade.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Reticências

Concluí que gostava mais da vida daquele jeito. Decepcionando mais do que era decepcionada, esperando menos do que era esperada, amando menos do que era amada. Só que nem sempre era assim. Uma ou duas conversas jogadas fora, olhar fixo no vão de entrada, ninguém nunca chegava. Só chegava ao ponto de saber que nada seria suficiente para suprimir aquele desejo de ser mais. 

- Uma boa dose de realidade.
Disseram. 

Ficou como uma dessas coisas que não foram, mas permaneceram assim como se tivessem sido. Entornava meu roteiro de encenações como uma canção que não cansa de repetir seu refrão. Sonhando mais do que podia, tentando achar sentido nas coisas mais do que era preciso, amando mais do que admitia. Você não se cansa de ser tão ensaiada, menina?

sábado, 17 de março de 2012

Com que caminho eu vou

Sabe o que amedronta, pra valer, uma pessoa insegura? Possibilidades.
Possibilidade de reencontros, de encontrar-se. Possibilidade de dar certo, bem como a possibilidade de ter que encarar o duvidoso. Possibilidade de uma saída num sábado à noite, de um dia nublado no verão, de ser a última pessoa que alguém pense antes de dormir e não somente alguém que tapa buracos, da possibilidade de um novo ou velho amor, e ainda a possibilidade mais que absoluta de perceber o tempo fazendo seu trabalho de levar e trazer para nossa vida, mais e mais possibilidades.
Descobri um fato sobre mim que pode parecer bem banal, mas vez e outra me pego revirando uma caixa de discos antigos e virando goles do velho vinho barato da estante. Tenho uma afinidade incorrigível pelo errado. Tudo que não presta me fascina, tudo que é pá errada me seduz e eu piro só de ouvir a palavra “perigo”. Quando a situação parece sem controle e um fulano qualquer vem me avisar que achou uns pedaços da minha ingenuidade pra trás, eu afogo tudo que tem pra afogar, faço tudo que vou me arrepender até começar tudo de novo. Então aí entram as possibilidades e o tempo.
Havia muito, os discos abandonados, as cartas não mais enviadas e celulares desligados e esquecidos dentro da bolsa. A situação se converteu para o máximo que a indiferença já foi capaz de alcançar. Nem preciso dizer como às vezes essas coisas, esses desfechos prolongados da vida me assustam. Tão prolongados que quando se dá conta já está em outra, cometendo os mesmos erros de outros jeitos, com novos gestos talvez um discurso um pouco mais inteligente. Mas a essência é a mesma, o que fica e o que provoca, isso nunca muda. Parece que a nossa vida toda é programada para repetir o mesmo filme, só que em cenas diferentes. Isso acaba com a pessoa, principalmente para os inseguros, como nós. E eu, eu estou cansada de fazer esse papel que não é o principal nem o de figurante na vida das pessoas. Chega desse meio termo, ou sou tudo ou sou nada, decidido?
De qualquer forma, o outono está quase aí, uma chance, uma possibilidade de se deixar cair novamente para depois se reerguer. Quem sabe ensaiar uma nova farsa, explorar um pouco mais a introversão do meu mundinho vasto, de bichos ferozes e ervas daninhas. Ri da minha cara quem imagina o que se passa na minha cabeça a cada vez que eu observo, de longe, as felicidades alheias, os abraços que deixaram de me pertencer e às fotografias de vidas em que não sobrou mais espaço para mim. E aqueles que sabem, de fato, os anseios bobos, a minha mania de viver eternamente criando personagens fugitivos e loucamente imprevisíveis, na esperança de me corrigir. Esses, esses sim têm motivo de sobra parar rir da minha cara. 
Vez ou outra escuto uma voz: se permita, se deixa levar porque é por você, navega na própria loucura. Antes isso, que envelhecer dentro de si mesma deixando passar oportunidades. Deixando passar possibilidades. Mas e depois? Se eu me permitir, tudo o que consigo sentir é dor. Eu nunca vou estar um passo a frente do que é bom pra mim, e se houver uma chance, e aí, sou insegura demais, meus caminhos são mútuos e sinto uma paz inexplicável com a solidão, ainda que por vezes a deteste. São tempos difíceis para os inseguros. O que vem depois do verão? Não importa, o fim nada mais é do que uma possibilidade de recomeço.


terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

As fantasias de fevereiro

Custei a sair da cama hoje. Não fosse pela agonizante sensação de calor morno atemorizando minhas expectativas de um novo dia, eu talvez ficasse lá, com toda a fragilidade, com toda a angústia de dever não realizado, de promessa não cumprida. Um holofote mirando algum pobre coitado longe, um poste que dormiu aceso, os enfeites coloridos esquecidos no meio das ruas que amanheceram silenciosas depois de toda a extravagância da noite anterior.
É possível sentir daqui os vislumbres de mil almas acordando e se deparando com uma realidade não tão bonita quanto esperavam. O chão repleto de confetes, a garrafa de vodca vazia e corpos de mentira ao lado nas camas, tudo misturado ao vapor pesado de irrealidade e confusão noturna que ignora a luz do sol lá fora que tenta colocar nos eixos o estrago de pessoas que arriscaram tudo por um momento de loucura e felicidade passageira.
Aprecio a ideia de um novo, um novo risco, novos segundos de êxtase, uma nova sucessão de momentos contrapostos, nem que sejam apenas segundos. Embora eu negue que não me agrada, que minha mente navegue por oceanos mais rasos e calmos, é do novo e da fantasia que pertenço. A felicidade e eu costumávamos andar de braços dados, até que a vida começou a me empurrar de leve pro lado de fora da sombra das minhas fraquezas. Quando percebi, o caminho de volta era quase impossível de se chegar. Era necessário enfrentar obstáculos como culpa, medo e até meus sonhos entraram em jogo. Devo mesmo pôr tudo a perder por um segundo de insensatez? Repeti baixinho feito uma canção antiga de carnaval que exala saudade e recai sob meus ombros um peso de passado decorrente.
Hoje talvez faça falta. Ontem nem tanto, ontem só me deixou um gosto azedo na boca e trancou minha garganta que está seca até agora. Mas fevereiro... Ah, fevereiro sempre faz falta. Esse clima de festa, renovação e indiferença para o dever é o que mais me encanta nesse mês tão duro quanto amistoso. E quando fevereiro passar e levar com ele todas suas fantasias e derrubar todas as máscaras, não restará mais nada para se esconder. Tudo voltará a ser como antes, previsível, frio e com algumas rachaduras, feito uma tábua rasa.
Então o carro de som vai passar, pessoas infelizes dançando no ritmo da música vão passar, até o verão vai passar. A sujeira nas ruas e a purpurina vão sumir. Os brilhos falsos vão se apagar, restando apenas uma constante depreciação do velho amor abandonado, que esse não passa, fica igual uma torneira mal fechada pingando devagar pelo chão, montando trilhas disfarçadas de córregos infinitos. Eu vou passar por essa rua cinzenta quando as luzes se apagarem e os carros de som derem sua última faixa. Pisando em cigarro e lama, vou olhar mais adiante e ver que a escapatória é para a minha jaula a que chamam de futuro e mais uma vez vou olhar para trás. 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Fantasias, devolvam minha vida


Entre essas paredes, sei que em cada cômodo desse apartamento já cansou de presenciar discursos mal narrados de uma apostadora sem fé, de alguém que por estupidez ou medo, deixa passar as milhares de possibilidades de felicidade que existem e se deixa enganar por um segundo de atenção. Quase dezessete anos e ainda não sei pra que rumo levar minha vida. Era fácil quando não era real, era simples quando não estava acontecendo. Tantos planos em pendente, tantos sonhos guardados e eu só aqui de cara pra essa porta que o mundo fechou na minha cara. É preciso recomeçar de algum lugar, é preciso de um ponto de partida, é preciso olhar mais a frente pra enxergar tudo que me espera.
Tem muita coisa que eu não aprendi e que, cá entre nós, têm coisas que nem eu faço mais questão de saber. Remexer em papeis passados, em fotos de fundo de gaveta me leva sempre ao mesmo lugar: um sofá velho com uma garrafa de wisky que alguém deixou aí e esqueceu de levar. Depois, quem sabe, uma volta noturna nas ruas lamacentas com gente sentada nas calçadas chorando por expectativas quebradas de um amor que não se cumpriu e fotografar na mente um chão transbordado de luxúria e cigarro. Comecei a gostar desses ambientes difamados. Achei uma solução não tão boa, diriam, mas eficiente. Não, meu senhor, não virei garota do mundo, tampouco uma revoltada sem causa. Extasiei, acho. Se não pela ausência, foi pelo excesso de dureza que sempre me faltou.
Quando sinto que a fome de certos gostos antigos passa, volto aos trilhos. Volto a sorrir e tratar os outros com uma mansidão incomum, um pouco energética demais, talvez, mas funciona na maioria das vezes, pelo menos aquela necessidade de manter longe o que mata minha solidão se foi. Se tem algo que eu quero manter distância agora é daquela pessoa que estava me acabando aos poucos, aquela velha intrusa que se apossou das minhas tristezas, dos meus amigos, dos meus amores, de mim. Aquela que me fez perder a cabeça por males desnecessários, que me fez apagar as luzes do mundo por um único brilho falso. Se existisse a possibilidade de escolha: continuar vivendo dentro de uma mentira ou deixar pra trás e ser feliz pra sempre?

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Flores no asfalto

"Nada em mim foi covarde, nem mesmo as desistências: desistir, ainda que não pareça, foi meu grande gesto de coragem."


Se eu pudesse traduzir o momento de agora este seria um grande contraponto. Há muito tempo ando perdida nas minhas palavras, em minhas emoções, confusa em meio aos altos e baixos que a vida oferece. As horas correm, o coração dança no tic tac nervoso dessa melodia tanto encantadora quanto cruel chamada vida. Custo a acreditar que enquanto eu estou aqui no ápice, olhando de cima os horizontes que os últimos dias me permitiram enxergar, lá fora o mundo está acontecendo. Não que eu esteja fora da realidade, não é de sonho nem de loucura que estou falando, pelo contrário, estou plena e conscientemente lúcida, só que um pouco mais confiante, um pouco mais ilimitada, um pouco mais leve.
Não estou procurando nem esperando nada de ninguém, mas nem por isso deixei de ter esperança. Não é porque dei um salto à frente de tudo àquilo que me fez mal, que agora posso enfrentar tudo de pescoço erguido. Por favor, tenho direito de ser humana, tenho minhas fraquezas e sou insegura na maioria das vezes. A verdade é que eu só queria experimentar um pouco mais desse sabor de felicidade. De dias inteiros deitada numa rede, de correr na praia, de passar momentos bons e memoráveis ao lado das pessoas prezo. Queria desfrutar o quanto mais pudesse dessa doçura, que feito um milagre, refletiu e deu brilho nos meus dias, até então corriqueiros e enclausurados. Desse jeito bem clássico mesmo, porque eu pedi mudanças, mas a minha essência, a minha paz, eu não quero que se defira, desejo que dure enquanto for possível.
Depois de um tempo certas coisas começam a ficar bastante claras. A gente começa a notar que ainda pode se machucar, que a tempestade pode sim vir depois da bonança, começa a ter medo e isso não tem remédio que salve. A cura não é a simples menção de palavras que se gostaria de ouvir da pessoa certa, não é um plano que se vem pensado há tempos se concretize. Mudanças requerem força. Eu quis acreditar em mim, mas não se pode seguir traçando linhas perfeitas pra sempre. Vai haver um passo em falso, uma troca de amizade injusta, um ato de se fechar para o amor que não vai dar em nada. No fim das contas eu percebo de novo e de novo que a cura vem de dentro. De mim e somente de mim é que eu vou encontrar os motivos e descobrir minhas próprias carências.
Então por enquanto vou continuar dando tiro no escuro, tentando viver até a última gota, colocando a mão no fogo por quem não merece. A gente aprende, mas nada supera o gostinho de querer voltar a ser o que era antes. Sou frágil e me rendo à vontade de incorporar o meu ser, fazer o que der na telha e quebrar as regras que eu mesma estabeleci por medo de encarar a pessoa que me olha no espelho todos os dias.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Feliz ano velho

Minhas férias começaram bem, talvez não tão bem por causa daquele chororô de fim de ano, as despedidas de cortar o coração. Quem passou por média passou, quem reprovou, sinto muito – eu agradeço por fazer parte do grupo dos inteligentes da sala, o que claro, não me inclui, mas ainda assim é muito bom, porque ninguém merece fazer parte do grupo das sirigaitas ou das desmioladas – com todo respeito, por favor, não me interpretem mal, isso aqui não é nenhuma referência a exclusão social.
O que quero dizer é que, pelo menos no início tinha um quê de emoção, o que nesse momento não é o caso. Quem era pra ir embora já foi, quem era pra viajar já viajou. Mas infelizmente eu não tenho muitos parentes fora, e os que tenho moram num interior mais interior do que aqui, então tenho que me contentar e esperar até o Natal para bater as asinhas e me livrar desse projeto de fim de mundo. Mais uma vez, não é querendo menosprezar essa cidade tão amada, principalmente pelos meus velhos conhecidos que ocupam cargos apreciados na prefeitura. Enfim, estou me dispersando muito, culpa do ócio.
O mais triste foi ter que lidar com as despedidas. Achei que seria difícil, no fim foi mais desesperador do que o imaginado. Em pensar que esse foi o último ano para levar as coisas mais ou menos na brincadeira – e eu nem levei! Fiquei o tempo todo reclamando, fui irresponsável, porque não aguentei a pressão sob meus ombros e por pura falta de motivação. Mudei meus hábitos noturnos drasticamente. Se antes eu curtia a vida num total estilo top na balada, agora eu me restrinjo a filmes, livros, doces, música e lógico, muita escrita. Word que o diga. Coitado, ouviu muita choradeira. E agora que acabou, estou coberta por nuvens de arrependimento e louca da vida pra começar de novo. Total desperdício. Acho que vou sentir falta desse ano mais pelo que ele não foi.
Apesar desses momentos que caio na real e sofro dores de cotovelo maiores que aquelas que tenho nas costas por não me sentar direito, finalmente tenho aqui comigo uma espécie de paz. Quem diria! Não é que eu consegui? Não foi esforço nem tentativa, apenas o tempo, amigos. Ele pode até não curar, mas tira o incurável do centro das atenções. Clichê mode on agora, mas clichê só é clichê por uma razão: porque é verdade.
Esse era um texto pra falar dos meus planos pra esses dois meses antes de voltar à guerra, mas como sempre, tudo acaba na mesma coisa chata, eu. Queria falar sobre meu tédio terrível, mas só consigo pensar em solidão, sem contar que tenho problemas bem sérios pra resolver como o meu celular que come todos meus créditos quando faço recarga ou meu notebook que viciou na tomada e o som está com defeito há meses, bandido! E também o meu guarda-roupa que desde não sei que era não é arrumado, tampouco atualizado. Coisas simples que estão me incomodando de uma maneira angustiante. Sim, atualmente estes são os meus maiores problemas, acho estou me tornando uma criatura fútil, Deus me proteja.
Acontece que eu sinto estar verdadeiramente pronta para mudanças. Não me arrependo de ter alterado aqueles gostos juvenis e tentar ser sociável, aquilo era um saco e ainda bem que eu superei e percebi que de forma alguma me enquadraria. Agora que já achei meu lugar no mundo, é só aperfeiçoar e seguir em frente? Isso mesmo, seguir em frente. Repeti isso tantas vezes esse ano que chega a soar até um pouco artificial, mas é pra valer dessa vez e vai ser pra valer.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Enquanto isso, no mundo particular

E se eu decidisse optar pela desbanalização da realidade? Quem não entendeu, veja bem, você pode ser mais uma das vítimas dessa espécie conjuntiva de alienação em que o agradável não se une ao útil. Desde pequena fui levada a crer que quando crescesse iria ter um cabelo perfeito, roupas de alta categoria e um príncipe encantado. Culpa dos desenhos animados? Não sei. Acontece que foi frustrante acordar do sono sem que nenhum cara bonitão tivesse me despertado com um beijo de amor.
Esse otimismo detestável não para por aí. Como se não bastasse os vexames que tenho passado por minha própria conta, ainda tenho que lidar com essa bolha ininterrupta da hipocrisia humana. Pessoas colocando tudo a perder por motivos aparentemente sem sentido, indo pro fundo do poço por ligações não retornadas e promessas não cumpridas e jogando sua dignidade pro ar como se isso não tivesse a mínima importância em tempos como esse que o que vale é a garantia do sucesso próprio.
Não sei o que me causa mais repúdio, se são as séries de reclamações diárias cheias de frivolidade que alguns incansavelmente tentam colocar nos ouvidos alheios como se isso fosse muito importante pra sua sobrevivência na Terra. Ou se é o ideal que os outros querem passar de felicidade. Uma constante muito vergonhosa se quer saber. Não há nada de bonito na maneira descarada com que algumas pessoas se “divertem”, usando de uma travessura de mentira que só faz nutrir a própria ganância. Não estou falando de tocar a campainha e sair correndo, por mais que não tenha sentido nenhum em fazer isso, mas o que preocupa mesmo é o sangue frio que alguns têm em enganar pra se sobressair diante do resto. Um cara que mente pra sua mulher pra que nenhum dos egos saia perdendo, outro que pede perdão de joelhos na igreja sem fé nenhuma, sem contar aqueles que se iludem por si mesmos, realizando sonhos dentro da cabeça sem nunca ter coragem de arriscar.
E ainda me aparece gente pra falar de ética. Só sendo muito falso-moralista pra viver num mundo hipócrita como esse. Sem querer ser dona da verdade, é apenas minha falta de paciência falando, ela não suporta mais ver tudo de boca calada e eu não tenho mais capacidade nenhuma de tentar algo muito ousado tipo salvar o planeta, talvez eu esteja oficialmente me deixando levar pela tal bolha dos sem moral e tendo que considerar apenas os meus problemas que interessam somente a mim. É a força da influência, mas se tem uma coisa que nunca vai mudar é eu entrar em estado de aceitação.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Outra noite que eu erro o destino


Tenho medo de entender o que suas palavras querem me dizer. O significado que elas deixam transparecer me dá a sensação de estar entrando num apartamento que não é limpo há dias, onde o chão está repleto de vários restos de jornais, nas paredes fotografias velhas e manchadas, no ar um cheiro de livros mofados misturado a um aroma quente de café. É um ambiente cheio de pequenos resquícios de que ali habita um ser notoriamente abalado. Então fantasio. Fantasio o que querem dizer aquelas palavras parafraseadas. Devo distorcer todo o sentido, mas é inevitável. Eu não sei lidar com a sua complexidade. Vou mais afundo, sou só mais uma nesse turbilhão de almas perdidas na própria existência. Volto pra casa depois de um dia comum, um dia qualquer como todos os outros, acendo as luzes fracas do pequeno cômodo e sento na poltrona desgastada ainda sem tirar a roupa molhada de chuva. Ouço as gotas grossas caindo lá fora e meu coração dispara ao som de um trovão. O susto me faz desmerecer umas pontadas nauseantes de insatisfação. A constante da minha vida é algo que talvez necessite mesmo de um pouco de mudanças e inventar desamores parece a coisa ideal pra se sair da rotina. E permanecer com esse gosto azedo na boca, com o sentimento de que nada nunca acontece. E pensar no que já foi perdido e no pouco que resta a se perder. Não deve ser muito. Oh, mas quanta amargura! Quis levantar-me dali, sair daquela droga de poltrona, daquela droga de vida. Olhar além das cortinas encardidas, os carros na avenida passando depressa, jogando água nos pobres desafortunados na calçada. Não devem estar melhores que eu, presumo. Quero pedir meu jantar, mas compreensão ou qualquer coisa do gênero não está no cardápio. Sou péssima em conotações, talvez devesse mudar de restaurante. As luzes da cidade estão embaçadas e não se pode ver além. Os feixes que atravessam a janela são abstratos e refletem uma moldura meio insalubre dentro do apartamento, como se eu precisasse de mais obscuridade. Canso daquela imagem superficial das vidas que não a minha e lembro do wisky ao lado da minha cama, ou será que é mais vantagem diminuir a pilha de obrigações que pairam em cima da escrivaninha? Penso se tenho alguma carta pra responder, ninguém me envia nada há meses. Minha caixa de e-mail está vazia, se não cheia de futilidades. Tenho alguém pra ligar? Teria, se você atendesse meus telefonemas. Não que eu já tenha tentado, mas algo me diz que é melhor esperar uma ligação sua, que eu sei que nunca virá. Meu consolo é tentar decifrá-lo todos os dias, por isso tem sido dias iguais, na fuga de saber algo meio vago e totalmente incerto. Os trabalhos podem esperar, vou deixá-los de lado, mais uma vez. A minha saída, já sei, não estar em cumprir obrigações, eu não tenho nenhuma se não em tentar me salvar. O wisky me espera como uma terapia ao final de cada dia. Dias iguais. Há tempos venho esperando alguma mudança, como algo parecido com uma reviravolta, mas única reviravolta é aqui dentro da minha cabeça. Feixes de luzes ultrapassando minha retina, cheiro de mofo misturado ao wisky, o vento frio fazendo um barulho meio mórbido por entre as aberturas da janela mal fechada e sinto novamente vontade de te ligar, mas tenho medo do que suas palavras querem me dizer.

domingo, 28 de agosto de 2011

Logo eu

- Tenho ímã pra gente problemática.

- Dizem que quando as pessoas nos procuram é porque querem um conselho de alguém que passa algo diferente e de fato desejam aquela postura de vivência. E Deus usa essas pessoas, que tem o ímã.

- Quer dizer que Deus me usa pra transmitir conforto pros outros?

- Tu és especial.

- Não, então porque sempre te procuro? Você deve ser o meu correspondente.

- Você é o meu correspondente.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Na dúvida, escrevo

Posso recitar mil poesias, querer imitar todos os poetas que admiro ou tentar encantar todos meus amores não correspondidos e ainda me restarão incertezas quanto ao que quero transpassar e o que realmente entendem a meu respeito. Escrevo pecando na vontade de querer ceder o máximo de mim, querendo conduzir todas minhas dores e recordações ao outro, para que ele saiba o que acontece aqui dentro e carregue a mesma cruz. Escrevo para que entendam, acima de tudo, compreendam que posso impedir que me levem ao caos, mas que também sou capaz de travar uma guerra. Não, não estou pedindo para que invadam minha intimidade, até porque, de longe, está prestes a existir alguém tão apto. Escrevo em busca  de uma verdade que se faça explicar, me complicando mais ainda, indagando se seria melhor se eu seguisse à risca minhas objeções. É verdade que quanto mais definições faço de mim, mais imutável sou. Escrevo porque tenho meus motivos de ser assim e não ter poder sobre minhas escolhas, pois às vezes me sinto comandada por um painel de controle ignoto. O mundo anda hostil, mas não vou negar que luto contra todo o mal que existe, não vou ensaiar uma farsa que compromete minha posição e minhas desaprovações diante desse enfermo. Posso até chegar a assumir que não somente me oponho como também compartilho meus vícios e defeitos que nada contribuem para essa coisa que todos procuram chamada paz, muito menos a minha. Escrevo porque possuo demônios a serem libertos, e para alimentar meu egoísmo, eu os solto para que não firam somente a mim.  Escrevo por achar que aqui eu posso um dia instabilizar meus anseios. Por querer descobrir o que fazer quando até os sentimentos caem na rotina. Escrevo para perder o medo de mudar, pra enfrentar o desconhecido e entender que o que me aguarda não deve ser tão ruim assim. Então, finalmente poder me desapegar do que não serve mais e procurar outra forma de substituir o que antes fora essencial. Pode não parecer, mas a complexidade das dúvidas é que geralmente pensam por mim, muito mais do que a exatidão das certezas. Por isso escrevo.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Tudo é tão difícil como parece

Por muito tempo, assumo dizer que vivi sobre a sombra de muitas circunstâncias. Presa em situações tão ansiadas em serem vividas, o reconhecimento de mim mesma era dado diante daquilo que eu fazia, nunca daquilo que eu realmente era. De certa forma não tenho queixas, tenho mesmo fascínio pelo meu passado, e a intensidade com que as lembranças me acolhem é devastadora. Por outro lado, a forma doentia que às vezes isso parece ser não atende muito bem ao que procuro como paz a sua maneira.
Tenho calafrios durante a noite e penso e repenso, bordo com aflições desesperadas as entrelinhas daquilo que já não é mais uma realidade. Faço-me perguntas como pra onde foi todo mundo? O que aconteceu com a gente?  E assustadoramente as mudanças recaem em cima dos meus ombros.  De repente alcançar o íntimo de alguém que já foi muito íntimo pode ser perigoso e até mesmo intimidante. E aí me vejo totalmente desencorajada pra seguir em frente e com preguiça de retomar minhas vontades.