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domingo, 23 de setembro de 2012

Teatro dos desafetos



A razão é como uma equação
De matemática... tira a prática
De sermos... um pouco mais de nós!
Que o teu afeto me afetou é fato
Agora faça me um favor



Não pensar é uma matéria que venho estudando arduamente, mas que é, sobretudo, dificílima. Quando penso que repenso que tudo caminha para o lado contrário, será se acha, no fim, que talvez essa seja a maneira que a vida encontrou de me mostrar o que realmente importa? Eu não gosto do que é mostrado, eu faço de desentendida e inauguro todo dia uma definição de mim mesma para mostrar ao resto do mundo. Da realidade a utopia só existe um passo, dançamos? 
 Ontem o tempo esfriou, as coisas esfriaram e eu fiquei sentada boba alienada apreciando meu último suspiro gélido antes de me entregar, impensavelmente, para o mal. Quando falam sobre “mal”, impossível não pensar na cor, na ebriedade, no pedido de socorro. Impossível não se distrair ao mexer com fogo, eu me queimei. O ponteiro do relógio faz sua melodia constante e tediosa ao mesmo que meu coração faz engano, desengano, engano, des (...) até que ponto fingir ser algo que não sou pode me levar? Sozinhos nunca somos os mesmos pra nós assim como somos alguém diferente para cada um e é piegas, assim como o amor, tudo que tem a ver com a mentira, é piegas. É complicado se perder dentro de si e só se achar numa outra alma e ela nem saber disso. 
 Mas não adianta quanta ajuda seja oferecida, ou quanto seu coração ainda se predispor ao looping infinito da não correspondência, pois há quem diga que Drummond foi são e verdadeiro ao escrever Quadrilha, assim como há quem diga, por exemplo, que a primavera é a estação das flores. Já dei você tantas vezes como causa perdida que inevitavelmente perdeu o brilho, perdeu a confiança, se exauriu minha incontestável admiração, a única coisa que ficou foi essa sensação de lâmpada queimada, ferrugem, essa coisa torta a que chamam de Amor Obsoleto. 
 Hoje acordei chorando, mas sequer lembrei do sonho. Chorava com fervor, podia facilmente ser um pesadelo. Minha mãe pedia por mim, pude ouvir gritos desesperados e eu continuei sofrendo aquele pesadelo por um bom tempo. Não sei bem por que, mas deve ser mania da alma da gente se amargurar por não verdades e idolatrar a ilusão. Do mesmo jeito que você finge pra mim e ele finge pra você e assim por diante. 
Eu não tenho mais fé nem coragem de ainda jogar verdades duma maneira de te fazer perceber, porém eu mato o peixe pela boca, mas não fico engasgando esses meus discursos flagelados que repudiam toda essa farsa e ainda param e protestam pedindo mais. Chega a ser brutal a forma como reprimem uma antiga fera inconsolável com migalhas de pouco em pouco de dúvida a dúvida. Você acha que transborda, mas não preenche uma gota sequer.

sábado, 8 de setembro de 2012

(Im)previsto

Eu disse que não voltaria pra você, que não estaria lá por você. Mas, bom, foram tantas coisas que eu disse que não faria e fiz, tantas promessas que eu jurei não voltar atrás e voltei e me permiti navegar nesse mar mesmo sem saber nadar, me deixei afogar no silêncio das palavras não ditas e cair, cair fundo, direto pra tua vaidade, rumo ao-beco-sem-saída-que-você-diz-se-chamar-coração. 
 Disquei sem querer aquele número gravado na minha memória. Igual a você, impregnado, fatigando as madrugadas a fora e dizes sem saber o quê, mas te falta vergonha na cara tanto quanto por atender esta ligação impertinente no meio da noite. Tu me dás as chaves que preciso para engatar o meu senso sombrio, ou melhor, a minha falta de bom senso, o que falta para eu desatar esses nós que fazes e me provocas, garganta, estômago, não faz ideia do poder que possui sobre mim e me pisa e me possui mais do que a si mesmo e se entrega em camas e rostos e fantasias que diz amar, mas tudo o que queres é ser amado e o que tenho não te satisfaz uma gota sequer. 
 Se ainda te chamo agora é porque te preciso, se tu vens é por motivo que desconheço, pois nunca entendi suas idas e vindas, por vezes, simultâneas, que me confunde e me faz sedenta cada vez mais dessa tua água escassa que não deixa faltar, mas que não sacia. Mas se, por exemplo, tu me chamas, eu me demoro por orgulho, mas não aguento em vontade de correr para os teus braços que ora fecham ora se abrem a minha procura, porque não me deixar simplesmente ir? Afunda na tua paixão, na tua loucura e me liberta. Mas não me deixa, não me liberta desse laço, desse nó apertado que parece forca. 
 Quando baixo o tom meio enraivecida meio torpecida, quase que no intuito de ganhar por assim carícias ou a simples atenção fingida de perguntar se vai tudo bem. Mas não vai. Ao baixar o gancho do telefone, o cinzeiro já cheio, quero que já retorne a ligação e diga esqueceu do beijo de boa noite. Mas não liga. E se liga é por assim me prender mais ainda, sem me deixar uma única escapatória que consiga se desculpar da história toda eu-não-sou-sua-você-é-meu-portanto. Não me escreves por acaso, pois o papel é a lâmina, as palavras são as amarras que me seguram. Aproximo tentando fugir e desaponto-me e me doo por inteira. Do verbo doar, do verbo doer. Que espécie de encaixe sou na tua vida é um mistério, pois se não sou quem preferes conversar, muito menos com quem vai escutar seus velhos vinis e deitar-se contigo sobre o tapete da tua sala hoje à noite. Não sou dona das melhores palavras que te fazem dormir ou que te fazem alucinar. Não compartilho os teus devaneios nem nunca serei tua escolhida para tuas aventuras. Não tenho confiança no que dizes assim sem saber o quê, nem desfruto das tuas escolhas irracionais. Acho melhor admitir que não o conheço, afinal.


sábado, 4 de agosto de 2012

O último feixe de luz

Foi nesse início de Agosto que o tempo pareceu parar. Só que os segundos, minutos, horas, dias, semanas, no meu relógio de pilha fraca, no calendário de papel gasto preso na geladeira vazia da casa deserta, o tempo, não parava nunca de passar. Dentro da gaveta havia uma carta para Ana que jamais enviei. Um clichê inegável, faltava o pairar para a janela e ver a chuva caindo, mas não chovia fazia meses, o sol lá fora inundava o quarto de uma melancolia característica, o calor efervescente não combinava a frieza do momento nem à minha escolhida solidão em que tirei duma caixa de preferências para me ajudar a atravessar Agosto. Abri a gaveta para ler mais uma vez minhas palavras mal encaixadas dentro de uma parte daquilo que eu queria dizer. 

“Ana, 

eu não tenho artimanhas para me dirigir a algo que eu sequer sabia que tinha. Não, eu nunca tive e eu dizia. Parece que em voz alta tudo fica ou é mais real. Mas eu ando abafando entre as paredes desse quarto, abafando tanto, entre o refúgio que achei debaixo dos lençóis, dentro de tudo que eu queria dizer, mas que foge inexplicável ou se transforma ou se materializa em forma de decepção exacerbada, de esforço não reconhecido, em cansaço de sempre viver de metades, talvez eu tenha tido essa dificuldade em aceitar – que você pode chamar de coragem – e deixar pra lá, porque comigo sempre foi tudo ou foi nada, desisti dos seus meios termos e assumi a posição de nada na sua vida. Aceitei. Hoje parado sem muito o que fazer eu só posso dizer que sinto muito por você sentir tão pouco, pouco o suficiente para não preencher as lacunas que eu imaginava precisarem de você e da confiança que eu precisava depositar mas que você não foi capaz de conquistar. Não estou sendo ingrato, eu posso ter um dia confiado, posso em vários momentos, esses que a saudade chega a doer forte e lá no fundo, ter te feito peça essencial na minha vida, mas palavras, minha querida, palavras valem apenas no momento que são ditas e você escolheu a hora errada para dizê-las, mas quem sabe era tudo que eu precisava ouvir para me despertar e dar esse passo importantíssimo: parar o quanto antes. Eu não queria chegar a essa conclusão, me recusava, era mais do que eu, naquele momento, podia suportar, só que a verdade é, sobretudo, inegável, você se concretizou, você é indiferente a minha falta e capaz de sustentar uma vida toda nas costas do orgulho e dos seus parâmetros, Sua Base. Meu melhor amigo agora é um autor de livros tristes, porque perdi a quem procurar nesses dias chuvosos dentro da gente. E eu precisava. Te dizer que fingir que não estou nem aí pra você foi uma das coisas mais difíceis que já fiz. Que me apunhala nas costas a dúvida, aquela que não me deixa ou não quer que eu acredite que você se foi pra valer ou se está enfrentando o mesmo dilema ou. E que não, eu não conseguiria. Encarar outra vez seus olhos de uma inocência fingida, de acusações pelos meus erros, sobrecaindo em mim toda a culpa do mundo. Encará-los não passa de uma vontade acovardada, medo de ser o primeiro a dizer, ou pior, o único a dizer." 

Ventava forte no parque. Atravessei distraído aqueles campos de girassóis abertos, pareciam satisfeitos com a intensidade do sol naquela tarde triste de sábado. Eu não saía de casa havia um bom tempo, eu não arriscava abandonar o sofá, os discos, cigarros e vodca, o cachorro velho, o cactus que deixei morrer. A claridade ali meio que me assombrava. Num banco logo a minha frente estava Ana. Ela não parecia ter reparado em mim ou simplesmente ignorava ou devia pensar que era apenas um desconhecido passando e na realidade eu era. Mas eu não me intimidei como de costume, fiquei parado olhando, suas faces relaxadas, estava bem, entregue a uma paz que não, eu não compartilhava. Tinha flores na mão, mas não eram girassóis, outros tipos de flores que eu não soube reconhecer. Na outra mão, eu também não tinha certeza, segurava firmemente o conforto dos seus sonhos, o que sempre desejou num mundinho que era só seu e que eu percebi, não havia mais espaço pra mim. E quando eu acenei, incontido, esperei que ela virasse, mas ela não virou. Quando chamei seu nome, esperei que ela olhasse, mas ela não olhou. Continuei esperando que ela sorrisse e corresse para me abraçar, mas ela não me via, não virava, não sorria, sorriso costumeiro, não corria em minha direção.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

O mal que não tem raiz

Eu sei que tudo isso é um pouco difícil de processar, minha querida, mas preste bem atenção: o errado nessa história o tempo todo fui eu. Sim, já tivemos essa conversa antes, eu confessei muito do que estava preso em mim, mas nunca pude te encarar face a face e dizer aquilo que eu sempre quis dizer, mas é uma dessas coisas que ficam dentro da gente, mastigando e que engasga depois de engolido. Você provavelmente já deve saber, me conhece tão bem, mas sabe que a atitude mais correta a fazer é fingir não sentir o fogo queimando entre os vértices dos nossos sentimentos antes que nos transformemos de vez em cinzas. Naquele dia, e alguns que o antecederam, eu mal pude respirar. Porque é normal se sentir apagado de vez em quando, mas você tem esse dom de me reacender em dias de pouco sol, de me aquecer quando faz frio lá fora. Sua presença, descobri ser um vício incontrolável, algo pouco saudável porque apesar de palavras cheias de juras, eu jamais pude competir com a sua outra metade que não me amava, jamais pude me acostumar a esse nosso relacionamento unilateral. Você já pensou na força que uma pessoa fragilizada pode ter? Viver de migalhas não alimenta um homem sedento de atenção, possuir metades ao invés de por inteiro leva a ações bruscas, porém jamais sem antes terem sido provocadas. Você me seduziu para um túnel sem saída, coração, e por mais que você seja novo, maduro e reinventado, você continua indo parar na mesma ratoeira, atraído por sobras que algum rostinho bonito te deu. Hoje jurei não procurar, não ligar, não deixar mensagens na sua caixa de entrada. Hoje jurei esquecer seu endereço, me perder num bar qualquer, me embrenhar em solidão, achar alguém diferente que me faça esquecer. Hoje eu venci meu desafio, mas por que continuo me sentindo como se tivesse perdido? Talvez eu tenha deixado passar a parte de que você talvez desconheça, essa parte de mim que te ama perdidamente. Não, não só uma parte, essa é a diferença entre mim e você, porque você pensa que me enganando vai poder também se convencer de que foi só uma noite, que não vai mais acontecer. Eu fico arquitetando aqueles instantes para os meus dias intermináveis e eles se repetem até virar produto da minha imaginação. Mas se você me conhece tão bem, deveria saber. Devo ter mesmo estragado tudo, nossa relação, clara, limpa, meio sem vergonha e mais uma pitada de desejo no meio, só podia mesmo dar nisso, você sabe o quê. Quando costumava me procurar, pra contar cada parte do seu dia e pra dizer como estava decepcionada com eles, com ele, eu sofria com você por eles, por ele. Então você parou, e eu passei a te procurar só porque você não me procurava, ligar só porque você não me ligava, amar só porque você não. Preciso de motivos? Está na cara que sim, não é simples se conformar que tenhamos perdido aquilo que cresceu tão sem controle dentro de mim, algo que eu sabia desde o início que ia acabar daquele jeito, mal. Vem aqui me dizer o que quer com essa palavra “acabar” que meu coração não aprendeu a traduzir. Abre de vez esse jogo e toma uma decisão antes que eu o faça e todas as partes saiam perdendo. Acredite, eu sei me retirar quando chega a hora, percebo quando não dá mais pra mim. Seja lá quem for o culpado, nós dois vamos carregar o fardo, esse arrependimento que já posso ver nos seus olhos agora. Leia de novo nossas conversas, lembre-se das promessas que você não cumpriu, grave bem o quanto você me elevou para o topo das suas prioridades para depois me empurrar ladeira abaixo. Não me venha com discursos falso-moralistas de que eu só lembrava quando você esquecia, estive do seu lado quando tudo desmoronava sob sua cabeça e até você reconhece isso. Dê-me logo a desculpa que preciso para dar um basta nisso. Desencantou, o amor que você pensava ter acabou, e que eu posso me esquentar com outros corpos, me lamuriar da vida na companhia de outras, conseguir um novo motivo para escrever e até arranjar um relacionamento real e não essa mentira que estamos vivendo nos últimos meses. Então eu paro e penso, tão mesquinha, tão meio termo, tão vítima da própria existência, você não é tão santa quanto gostaria de ser e nem tão diabólica quanto pensa que é. No jeito que me paga de surpresa, desprevenido e sempre pronto para dar o braço a torcer. Caio nessa armadilha sem volta, um masoquista que atende às suas fantasias promíscuas. Isso soa maquiavélico suficiente pra você? Eu que sou fraco demais para reagir, pois toda vez que olho olhar de menino abandonado, cachorro sem dono, é você quem está lá para me salvar, pra impedir que eu me torture da dor que você mesma causa. É que quando eu não estava bem, era sempre a você que eu recorria, e agora que eu não estou bem por causa de você, não sei mais quem procurar. 

 Whatever happens tomorrow, we've had today.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Reticências

Concluí que gostava mais da vida daquele jeito. Decepcionando mais do que era decepcionada, esperando menos do que era esperada, amando menos do que era amada. Só que nem sempre era assim. Uma ou duas conversas jogadas fora, olhar fixo no vão de entrada, ninguém nunca chegava. Só chegava ao ponto de saber que nada seria suficiente para suprimir aquele desejo de ser mais. 

- Uma boa dose de realidade.
Disseram. 

Ficou como uma dessas coisas que não foram, mas permaneceram assim como se tivessem sido. Entornava meu roteiro de encenações como uma canção que não cansa de repetir seu refrão. Sonhando mais do que podia, tentando achar sentido nas coisas mais do que era preciso, amando mais do que admitia. Você não se cansa de ser tão ensaiada, menina?

terça-feira, 1 de maio de 2012

O que sempre acontece, de viés

Amontoada de cartazes e garrafas vazias, meu cômodo é aquilo que se pode esperar de um frescor adequado para o meu momento distraído, numa estranha inadequação. Aliás, eu até tragaria um cigarro agora, para dar um ar mais distraído. Atravesso de novo e de novo aquela velha avenida, vou ouvir um rock brega naquele bar de sempre, invento o meu segredo. Ele chama o garçom, pede mais uma rodada e eu me disperso na curiosidade de saber onde aquilo vai dar. Na minha já aceita condição de “outra”, concordo ficar mais um pouco, já não tenho receio nem uma gota de dignidade. Se meu julgamento final for dentro da minha cabeça, estou eternamente condenada. A fraqueza não me deixa reagir e eu recaio aonde quer que os braços dele apontem, isso é verdade. Invento desculpas pra mim e pra ele de porque eu não vou embora, minto que preferia estar em qualquer outro lugar. Atenho-me a necessidade de dizer o que não deve ser em alguma hipótese dito, não por mero pudor, mas por aquilo tudo já ser um assunto morto enterrado e que ninguém ali iria dançar depois da música já ter terminado. Enquanto isso, ele tenta descobrir meus segredos, por que razões não sei. Pode ser por verdadeiro interesse em desvendar essa minha alma que erra em sentir ou apenas para me ganhar com seus falsos encantos e ter alguém para esquentar sua cama hoje à noite. Claro que ele pode escolher algumas amandas ou letícias por aí, e a dúvida é que me prende àquela cadeira em sua frente enquanto ele conta qualquer história sem valor e enche sem medo meu copo de mais vinho. Estou um pouco ébria e sei que meu segredo é mentir desesperadamente que não gosto dele. Como se não aliviasse um pouco o peso do mundo estar ali desfrutando daquela companhia, como se minha vontade não fosse de que ele surpreendesse com qualquer gesto brusco que me tirasse o fôlego. Gosto do jeito dele ignorar o celular tocando, mas sei quem o procura e isso me traz de volta a realidade. Estou tomando proveito de rédeas alheias em que não posso controlar. Será o vinho? E me aborreço por vício. Congelo de ciúmes e a primeira reação é o silêncio. Depois a súbita ameaça de ir embora. A minha insegurança o faz rir e dizer que não passo de uma menina boba. Não passo de uma menina boba, angustiada, de punho e mãos fracas que não sabe tocar seu coração nem desatar seus nós. A história se repete. Uma semana sendo amante de meninas, mulheres, amando-as, despenteando cabelos e sentimentos. Toda essa voracidade vem parar sempre no mesmo porto. Uma sexta-feira cinzenta, com uma estranha conhecida, que pensa que conhece, mas não a vê. Uma noite de música velha e vapores de bebidas baratas, caminhadas ao vento frio noturno sob calçadas enlameadas de fumo, resquício de chuva e buracos. Ele canta uma canção que me toca e envolve. Uma canção que quase me faz acreditar e aceitar que o amo, mesmo em toda informalidade existente ali naquele pequeno espaço entre nós dois. De repente sou tomada pela esquisita satisfação de estar onde queria estar. Ele me tocando, eu acoberta de um abraço que me dá a sensação de ser de verdade, aquilo, aquela confusão. Fui seduzida de novo para aquela ratoeira e me deixo enganar. Estou esperando a qualquer momento uma renúncia, mas ele não me machuca, ele continua me fazendo crer naquela realidade inventada. Permanece me suportando, não recusa o abraço. Eu sinto uma febre, medo e me vejo apática. Ele finge que acredita, mas não solta, não alivia essa corda envolta do meu pescoço e demonstra indisposto a me deixar ir. Dessa vez sou eu que finjo que acredito. Sorrio meio exagerada, o álcool e todo o resto já me subiu a cabeça. Vou embora, esqueço o celular desligado dentro da bolsa, perco as chaves de casa, abandono a cidade e percebo que não queria te deixar sem antes te dizer tudo isso. Que nem eu sei. Encontro ele vazio, olhar distante na janela do meu quarto. A batida violenta da porta deve tê-lo chamado atenção, pois ele se virou pra mim ao mesmo que eu encarava o chão numa tensão, uma exustão imensa. A indecisão de não saber se queria sair fugindo daquele inverno que se fez no meu cômodo ou de ficar e vê-lo incendiar o que ainda me sobrava, amansar uma antiga fera com beijos enternecidos. Eu não queria estar em outro lugar, imagino o final daquela noite em complacente perfeição e tomo a última taça de vinho num gole só. O peixe morre pela boca.

sábado, 28 de abril de 2012

A terceira pessoa

Ela é sua colega de classe, e dependendo pra onde você olha, ela é em parte uma total desconhecida, personagem principal da mais incrível história do seu verão passado. Ela é amante disfarçada de amiga e pode ser o contrário também. Um medo comum em que se tem ao conhecer essa pequena criatura imprevisível e ao mesmo tempo encantadoramente perdida é de que ela saia caminhando entre as pessoas a cada piscar de olhos, a cada mera distração. Ela some. Por que ela insiste em omitir sua vontade? Por que não se cansa de dançar no ritmo da música se nem ela gosta daquele som enjoativo que amolece os sentidos? Espera por uma canção diferente, será? Atrás de um sentimentalismo incondicional, estava ali alguém que era fácil esquecer, até que fosse embora de vez. Ela não era forte, pelo contrário, era fraca demais e se satisfazia com o pouco que lhe era dado. Sua coragem de virar as costas pro mundo sumia toda vez que uma pessoa pegava em seu ombro e dizia pra ficar. Fique mais um pouco. Ela por um instante esquecia do seu desgaste interior e ficava e alimentava aquele monstro que tinha fome da sua presença, que quando se via longe, mordia com força lá dentro pedindo por mais doses de você, aquele pedaço de carne que ela não podia roubar. Falou certa vez para esse alguém que era de uma segunda pessoa, que ali ela repousava uma paixão imensa. Ela disse “eu quero você perto de mim, sempre”. Estava na cara que nunca havia pronunciado aquelas palavras antes. Ela afastou um pouco aquela imagem para não se ver diante da vergonha. Não olhou nos olhos. Ela não olhava nos olhos, um tipo de timidez alternativa, que se olhasse, isso a denunciava e ela prezava sua lucidez. E perdia, a timidez e a lucidez, bastava pisar em solo desconhecido. Nessa de brincar de dizer a verdade, se fez ali uma barreira que causou exaustão por criar laços ilusórios com as pessoas e direta ou indiretamente receber nada em troca. Ela entendia que o mundo às vezes não cabia as possibilidades em que ansiava, mas sufocava, fragilizava, essas coisas, essa impossibilidades da vida. De tanto colecionar experiências, acumulou uma carência gigantesca de base, de conforto, de alianças simples que não façam o mundo cair sob sua cabeça. Ela não guarda, nem aprende nunca. Acumula. E nunca conta pra ninguém. Sente e é tomada de pudor dentro da própria realidade, não esquece fácil e esse é seu maior pecado. 


Would you leave me if I told you what I've done? 
And would you leave me if I told you what I've become? 
'Cause it's so easy to say it to a crowd 
But it's so hard, my love, to say it to you out loud

sábado, 21 de abril de 2012

Entoando velhas notas

Essa é provavelmente mais uma dessas cartas que depois de uns rabiscos vou amassar e jogar contra a parede. Eu não queria te atormentar mais, sabe-se lá como vem sendo sua vida nesse último ano, e nos outros dois passados, o que me alivia é poder descontar toda a minha tristeza em mim mesma de forma que me convença que lá no fundo você sabe o que está se passando. No fundo você sabe. O que não dá pra entender é como nós nunca nos cansamos de jogar esse jogo de farsas e silêncio mútuo desses que quando o frio aperta, bate feito soco no estômago.
Estou condenada a viver achando resquícios do passado em toda esquina por onde passamos, em todo verso solto talhado como que para assombrar ainda mais meus dias achando que cada passo meu é assim por uma razão e que quando coloco na minha cabeça que tem a ver com você, nada é por acaso. Sempre fui daquelas que se confortam na própria imaginação e prefere o mundo raso dos sonhos a acreditar que algumas coisas são realmente de verdade. É mais fácil me guiar por caminhos que nós já traçamos, sem muitos esclarecimentos se já passou ou ainda é apenas cedo demais pra saber, do que me jogar num mar inexplorado onde sei que não consigo nadar.
Engano meu achar que eu poderia ser a chave das respostas da sua vida. Estou condenada a servir de reserva quando sua ignição der prego. Essa é a hora em que você, até então distraído, quase que relaxado tragando uma fumaça do seu cigarro, se volta contra mim usando um tom grave e vocifera com urgência que eu sou uma louca desvairada que não sabe viver sem ter sua dose diária de atenção e que eu não faço a mínima do que é ser esquecida quando o que se mais precisa é de um abraço que te faça esquecer o resto do mundo. Pois eu sei. Sei muito bem a sensação de não ser sempre a primeira, lição dada, graças a você. Nunca vou te perdoar por ter me ensinado isso do jeito mais amargo, me deixando uma viciada em solidão, já que todo o resto me leva a essa estrada direcionada ao mesmo beco sem saída.
Venho buscando alternativas, me metendo em relações tão perigosas quanto, contando a história da minha vida para o primeiro que aparece perdendo seu tempo dando-me um pouco de atenção. O problema em eu me abrir demais pra alguém é que quando me dou conta do estrago, já estou à beira de um precipício, pronta pra pular. E eu me deixo sim, iludir por toda merda de traste que aparece.
Não sei o que fazer quando o que me faz forte é a mesma coisa que me mata aos poucos. Você foi meu porto seguro e isso reduz minhas chances a zero de ser salva já que entre nós só restou um monte de palavras não ditas e um distanciamento que não se explica nem em mil frases feitas que eu tentar fazer. Fico repetindo versos de canções pra ver se você volta ou mesmo escrevendo cartas que nunca serão enviadas, me perdendo nas chances que eu deixei escapar. E tentando me convencer que esse tipo de distanciamento não se espera, se corre atrás. E não me convenço e não corro.





- Eu disse que a amo tanto, que até dói.

- Sim, tudo bem.

- Eu disse que dói... amar você.

sábado, 3 de março de 2012

Nos bastidores

Não se trata mais de uma solução. A questão não é simplesmente me dar por vencida, e deixar de ir à luta. O golpe fatal me atingiu, perderam-se as razões para que eu continue insistindo? O fato é que o tal do golpe fatal me coloca em saias justas todos os dias, de todas as maneiras possíveis. Eu finjo que acabou tudo até começar de novo. Eu não sou tão simplesmente limitada ao ponto de querer soluções para as minhas neuras e o eterno medo de encarar esse mundo, que por ser meu, é tão inteiramente complicado e cheio de falhas e perigos que nem eu sou capaz de enfrentar. Esse medo constante que me impede da tarefa árdua de querer ser um pouco mais corajosa, um pouco menos repreendida. É tanta roupa suja que precisa ser lavada, é tanto sentimento desconvexo solto no ar, é tanta fé depositada em juras rimadas a uma quase certeza de que, ah, nada vai dar certo.
Algumas pessoas são iguais aquela carne solta de uma unha que você roeu. Incomoda, mas você não arranca, porque dói. Eu já me conformei com a ideia de conviver com essa realidade de que, por mais exaustivamente que se tente tirar alguém da cabeça, isso não vai acontecer enquanto você não se permitir sofrer, não se deixar levar pelas ondas de calor ou de frio, não importa o tempo que faça lá fora. Por mais violentas que sejam essas ondas, é preciso enxergar que há algum equilíbrio, onde a dor e a satisfação andam de braços dados. No meio de toda essa confusão, eu aprendi que o primeiro passo para se libertar, é aceitar o problema.
Eu bem sei que minhas palavras não fazem mais sentido algum ao que quero transmitir. Era pra ser uma conversa civilizada, acabou se tornando dois corpos ocupando o mesmo espaço, contrariando todas as regras da física e da minha própria lista de regras de autodefesa. Era pra ser, de alguma forma, uma exercício de força que pudesse me ajudar a vencer minhas fraquezas, enfrentar a minha nova lucidez. Mas não. Eu sou menina, sofro de danos colaterais facilmente, sou frágil e não nasci pra encarar esse mundo sozinha. Tenho que ter alguém a quem segurar a mão. E nem sempre vou aceitar de bandeja ou muito menos perceber uma oportunidade que passa a frente desses meus olhos anestesiados de coisa fácil. Coisa fácil é brega, coisa fácil é simples, coisa fácil não existe e nem tem valor. Enquanto isso, ocupo minhas noites insones pensando em quem com certeza nunca vai reconhecer esse meu mais puro, talvez único, gesto de coragem: o de sempre estar no mesmo lugar e pronta para aqueles que talvez nunca fariam o mesmo por mim.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

As fantasias de fevereiro

Custei a sair da cama hoje. Não fosse pela agonizante sensação de calor morno atemorizando minhas expectativas de um novo dia, eu talvez ficasse lá, com toda a fragilidade, com toda a angústia de dever não realizado, de promessa não cumprida. Um holofote mirando algum pobre coitado longe, um poste que dormiu aceso, os enfeites coloridos esquecidos no meio das ruas que amanheceram silenciosas depois de toda a extravagância da noite anterior.
É possível sentir daqui os vislumbres de mil almas acordando e se deparando com uma realidade não tão bonita quanto esperavam. O chão repleto de confetes, a garrafa de vodca vazia e corpos de mentira ao lado nas camas, tudo misturado ao vapor pesado de irrealidade e confusão noturna que ignora a luz do sol lá fora que tenta colocar nos eixos o estrago de pessoas que arriscaram tudo por um momento de loucura e felicidade passageira.
Aprecio a ideia de um novo, um novo risco, novos segundos de êxtase, uma nova sucessão de momentos contrapostos, nem que sejam apenas segundos. Embora eu negue que não me agrada, que minha mente navegue por oceanos mais rasos e calmos, é do novo e da fantasia que pertenço. A felicidade e eu costumávamos andar de braços dados, até que a vida começou a me empurrar de leve pro lado de fora da sombra das minhas fraquezas. Quando percebi, o caminho de volta era quase impossível de se chegar. Era necessário enfrentar obstáculos como culpa, medo e até meus sonhos entraram em jogo. Devo mesmo pôr tudo a perder por um segundo de insensatez? Repeti baixinho feito uma canção antiga de carnaval que exala saudade e recai sob meus ombros um peso de passado decorrente.
Hoje talvez faça falta. Ontem nem tanto, ontem só me deixou um gosto azedo na boca e trancou minha garganta que está seca até agora. Mas fevereiro... Ah, fevereiro sempre faz falta. Esse clima de festa, renovação e indiferença para o dever é o que mais me encanta nesse mês tão duro quanto amistoso. E quando fevereiro passar e levar com ele todas suas fantasias e derrubar todas as máscaras, não restará mais nada para se esconder. Tudo voltará a ser como antes, previsível, frio e com algumas rachaduras, feito uma tábua rasa.
Então o carro de som vai passar, pessoas infelizes dançando no ritmo da música vão passar, até o verão vai passar. A sujeira nas ruas e a purpurina vão sumir. Os brilhos falsos vão se apagar, restando apenas uma constante depreciação do velho amor abandonado, que esse não passa, fica igual uma torneira mal fechada pingando devagar pelo chão, montando trilhas disfarçadas de córregos infinitos. Eu vou passar por essa rua cinzenta quando as luzes se apagarem e os carros de som derem sua última faixa. Pisando em cigarro e lama, vou olhar mais adiante e ver que a escapatória é para a minha jaula a que chamam de futuro e mais uma vez vou olhar para trás. 

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Laço tão apertado parece forca


Caminhando, tentando traçar alguma direção nessa estrada, a passos lentos, calmos, temendo apenas ao destino, nada mais assusta, se não o fim. Mas acaba que se acostuma e continua, não vai parar mas ops... Algo deu errado? Perdeu o rumo, minha filha, se intimidou com a realidade, estagnou?
Eu perdi um pouco desse ar poético que entrava e saía pelos poros e me cobria de uma vertigem meio doída, meio distante. Pés no chão, volto a repetir, menina, você tem que ter os pés no chão, se não você cai ou você voa. Volto a pensar nessas coisas que falam por si só, mesmo contra a vontade, elas chiam baixinho no ouvido e alimentam o inimigo da razão. E se.
E se os caminhos, aqueles que vivo comentando. E se eles fossem paralelos, e se nunca precisassem se cruzar ou quando se cruzassem não precisassem se desencontrar? E se amar fosse sinônimo de ficar junto e se sonhar fosse combustível suficiente para força de vontade? Novamente contrariando a minha própria regra. Novamente no mesmo dilema de achar que foi sem que tivesse sido, contorcendo a verdade, enfeitando a realidade e dramatizando minha vida mais do que nunca. Nem eu, nem você, nem nada nem ninguém foi essa coca cola toda.
Não me peça pra procurar se não quer ser achado, não plante mais dúvidas, eu tenho uma vida inteira para me ocupar. Não seja tão evasivo ao ponto de tirar a confiança que eu andei buscando esse tempo todo. Egoísta, sempre tão egoísta, pensando na própria dívida, nos seus problemas mal acabados. Saiba que eu nada mais tenho a ver com suas complicações, nem mesmo restou algo que dê sentido a suas desculpas, nada me restou desde.
Comprometi-me a não dar mais queixas, mas acabo por não resistir e sim, eu penso em você. Era isso que queria saber? Satisfaça seu ego, se encha de vaidade e depois corra para seus refúgios mais confortáveis, quentes e seguros. Era apenas uma prova? Esteja ela aí na bandeja, prato principal. Sirva-se.
No que eu estava falando mesmo? De repente entro nesses assuntos isoladas e perco o foco. E não pense que não é assim na vida real também. Comecei falando das inquietudes da minha mente, mas acabei retornando ao ponto x da questão. A grande incógnita, o grande “e se” da minha vida.
Eu quis tanto você do meu lado, eu lutei tanto para conseguir que acabei fazendo tudo ao contrário. Chega a ser engraçado o quanto é inútil continuar lutando, se não para voltar quanto mais para esquecer. Eu já entendi o recado: meu bem, não adianta. Quanto aos caminhos, isso eu nunca vou entender, mas seguir o oposto, talvez tenha sido a única saída.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Fantasias, devolvam minha vida


Entre essas paredes, sei que em cada cômodo desse apartamento já cansou de presenciar discursos mal narrados de uma apostadora sem fé, de alguém que por estupidez ou medo, deixa passar as milhares de possibilidades de felicidade que existem e se deixa enganar por um segundo de atenção. Quase dezessete anos e ainda não sei pra que rumo levar minha vida. Era fácil quando não era real, era simples quando não estava acontecendo. Tantos planos em pendente, tantos sonhos guardados e eu só aqui de cara pra essa porta que o mundo fechou na minha cara. É preciso recomeçar de algum lugar, é preciso de um ponto de partida, é preciso olhar mais a frente pra enxergar tudo que me espera.
Tem muita coisa que eu não aprendi e que, cá entre nós, têm coisas que nem eu faço mais questão de saber. Remexer em papeis passados, em fotos de fundo de gaveta me leva sempre ao mesmo lugar: um sofá velho com uma garrafa de wisky que alguém deixou aí e esqueceu de levar. Depois, quem sabe, uma volta noturna nas ruas lamacentas com gente sentada nas calçadas chorando por expectativas quebradas de um amor que não se cumpriu e fotografar na mente um chão transbordado de luxúria e cigarro. Comecei a gostar desses ambientes difamados. Achei uma solução não tão boa, diriam, mas eficiente. Não, meu senhor, não virei garota do mundo, tampouco uma revoltada sem causa. Extasiei, acho. Se não pela ausência, foi pelo excesso de dureza que sempre me faltou.
Quando sinto que a fome de certos gostos antigos passa, volto aos trilhos. Volto a sorrir e tratar os outros com uma mansidão incomum, um pouco energética demais, talvez, mas funciona na maioria das vezes, pelo menos aquela necessidade de manter longe o que mata minha solidão se foi. Se tem algo que eu quero manter distância agora é daquela pessoa que estava me acabando aos poucos, aquela velha intrusa que se apossou das minhas tristezas, dos meus amigos, dos meus amores, de mim. Aquela que me fez perder a cabeça por males desnecessários, que me fez apagar as luzes do mundo por um único brilho falso. Se existisse a possibilidade de escolha: continuar vivendo dentro de uma mentira ou deixar pra trás e ser feliz pra sempre?

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Dark days are over?

Tenho plena consciência das inquietudes da minha mente, do meu medo incorrigível do escuro e do descaso que trato minhas emoções, como se fossem descartáveis ou pudessem se renovar a cada novo incidente, como se cada vez que o humor dos outros sofressem uma alteração eu fosse obrigada a estar de acordo e aceitar de cabeça baixa. E eu aceito.
Perguntam onde está minha convicção, pra onde foi parar a porra do amor próprio e em que rumo se meteu a pessoa de pés no chão que conheciam. No lixo. Tudo o que eu fiz e fui, foi parar no lixo, é assim que ando me sentindo. Não importa o quanto eu tenha lutado contra esse alguém que não suporto e ao mesmo tempo não consigo me livrar, porque esse alguém aqui dentro de mim sempre retorna. Nada que eu faça, porque eu já tentei outros ambientes, outras músicas, outras tribos, outros para amar, mas algumas pessoas não sabem a hora certa de sair da nossa vida.
Fica martelando. Está estampado e escachado a forma como o sentimento vai, mas não volta. E fica no ar a questão de que estamos vivendo, mas a troco de quê? Eu queria tanto que pelo menos uma vez eu fosse a parte da história que amasse menos, que conseguisse se desligar por alguns momentos na intenção – ou na falta dela – de fazer alguém notar a existência do meu lado mais blasé. Queria parar de me recriar na expectativa de agradar a quem eu sei que apenas finge se dar conta ou que realmente já esqueceu.
Têm dias, desses que o telefone não toca e nem a campainha chama, esses dias frios vêm e vão com uma grande interrogação que muitas vezes não explica o motivo de eu ainda não ter enlouquecido por ser sozinha. Desejo o tempo todo poder depositar meu afeto e confiança naqueles que me dão reais razões para fazê-lo. E mais que isso, levar a sério a filosofia do desapego e pregar isso não só por ser uma farsa elegante que sustenta meu orgulho. Está mais do que na hora de colocar três palavrinhas mágicas no meu vocabulário sem graça “let it go” e unir, antes de mais nada, à outras duas que necessitam mesmo de superação: dark days. E de uma vez por todas colocar um fim pra deixar que só as lembranças boas ficassem. Como se só as más lembranças doessem. Mas assim como algumas canções, versos entalhados e semanas intermináveis, existem pessoas que já deram o que tinha que dar.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Apesar de

As minhas mãos sobre as suas fraquejaram, a conversa afiou e no embaraço da espera, até meu coração indeciso quis enfim descansar. Numa dança incoerente, onde a gente nunca sabia que passos seguir, eu pude enxergar que talvez tivesse mesmo chegado a hora de enfrentar a realidade que me separava da sua. Não somos mais aquelas crianças que não sentiam peso nem culpa por serem irresponsáveis, por se embalarem em ruas cinzentas e se misturar na noite embriagados em meio a tanto cativo e cervejas baratas. Não carrego mais a mesma bagagem, sei tão pouco da sua vida e só nos aproximamos vezenquando numa esquina após fazermos uma escolha errada, depois de trancafiarmos algum sentimento e perdermos o controle das situações que a vida nos impõe. Sempre sendo tão pouco generosa com a gente, ela, a Vida. Desse jeito destacado, porque ela, a Vida, toda Ela, tem a ver com Você. Você maiúsculo, em letras garrafais e neon. Inevitavelmente, por mais que não me importe, por mais que a razão grite pra ter sua liberdade, é tão pouca a paz que me permito ter. Falta coragem pra dizer que nunca mais, falta pulso pra admitir que o passado só é passado por um motivo. Falta parar de lembrar datas, de tecer lembranças e acomodar esse eterno estado de depreciação. E todas as vezes que senti falta, que chorei e me odiei por ainda me atrever a ter saudade. As suas frases cheias de adeus ou na falta deles, eu deixei de me importar. Que te ver em dias não tão amistosos pode ser estranho, doloroso e que tenha no ar a impotência de um último encontro. Posso criar uma farsa bem ousada de que não me incomoda mais seus silêncios e que não vejo seus gestos como uma tentativa de chamar minha atenção. É certo que não dançamos mais a mesma música, nem estamos mais nas mesmas fotos, nossas vidas podem estar reviradas pro lado contrário, mas continuo a pensar que de alguma forma meio telepática, espiritual ou astral estamos interligados nessa relação incorrigível.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Ninguém pra ficar

É como se eu fosse sempre obrigada a fazer parte de um filme antigo que já enjoou. A cena se repete, o elenco é o mesmo, só mudam os personagens. A equipe de produção é incompetente o suficiente para não reparar os erros. Então eu fico de mãos atadas, sem saber muito que fazer a não ser assistir os danos que eu mesma causei pelo meu irreparável descaso, minha própria dívida de favores não devolvidos e afetos não retribuídos. De repente passo de atriz ruim de uma peça de péssima autoria para uma das poucas na arquibancada, que está ali por algum motivo banal ou porque foi obrigada, não importa, o fato é que estou louca para ir embora pelo simples motivo que não aguento mais um segundo de melodramas falsos, de desenrolares cheio de tédio com emoções limitadas e de repertório deprimente. Estou com medo de sobrar, vendo tudo escorrer pelas mãos, as pessoas saindo uma por uma, exaustas de tanto desaforo e demonstrações de apoio rudemente ignoradas. Talvez eu tenha me esquecido. Pode ter sido distração, falta de tempo, pode ter sido até comodismo. Posso também continuar enchendo linhas de desculpas esfarrapadas para meu excesso de falta de atenção e o egoísmo descontrolado que insiste em se vestir de capa preta e fazer pose de vilão me retirando de cena da vida de todos que eu tentei manter por perto, por ser algo construtivo e bom a se fazer, porque ainda é o que completa uma pessoa e dá sentido na vida dela: ter alguém por perto e do lado: sempre. Tive que deixar partir. Estar ao meu lado não é reciprocamente saudável quanto é pra mim ter outros como ponto de força ou qualquer coisa assim. Quero desesperadamente acompanhar as pessoas que saem murmurando frases de raiva, mágoa e até deboche, “ridículo” e ainda “que perda de tempo”. Alguns saem chamuscando de tanto ódio, outros mal contém o choro e penso que talvez seja por esses que ainda valha a pena dar motivos para retornar, ou quem sabe já seja tarde demais. Eu quero sair também, quero me livrar desse peso junto com todo mundo, não quero ficar sozinha, mas sou impedida, não se pode abandonar o próprio roteiro.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Outra noite que eu erro o destino


Tenho medo de entender o que suas palavras querem me dizer. O significado que elas deixam transparecer me dá a sensação de estar entrando num apartamento que não é limpo há dias, onde o chão está repleto de vários restos de jornais, nas paredes fotografias velhas e manchadas, no ar um cheiro de livros mofados misturado a um aroma quente de café. É um ambiente cheio de pequenos resquícios de que ali habita um ser notoriamente abalado. Então fantasio. Fantasio o que querem dizer aquelas palavras parafraseadas. Devo distorcer todo o sentido, mas é inevitável. Eu não sei lidar com a sua complexidade. Vou mais afundo, sou só mais uma nesse turbilhão de almas perdidas na própria existência. Volto pra casa depois de um dia comum, um dia qualquer como todos os outros, acendo as luzes fracas do pequeno cômodo e sento na poltrona desgastada ainda sem tirar a roupa molhada de chuva. Ouço as gotas grossas caindo lá fora e meu coração dispara ao som de um trovão. O susto me faz desmerecer umas pontadas nauseantes de insatisfação. A constante da minha vida é algo que talvez necessite mesmo de um pouco de mudanças e inventar desamores parece a coisa ideal pra se sair da rotina. E permanecer com esse gosto azedo na boca, com o sentimento de que nada nunca acontece. E pensar no que já foi perdido e no pouco que resta a se perder. Não deve ser muito. Oh, mas quanta amargura! Quis levantar-me dali, sair daquela droga de poltrona, daquela droga de vida. Olhar além das cortinas encardidas, os carros na avenida passando depressa, jogando água nos pobres desafortunados na calçada. Não devem estar melhores que eu, presumo. Quero pedir meu jantar, mas compreensão ou qualquer coisa do gênero não está no cardápio. Sou péssima em conotações, talvez devesse mudar de restaurante. As luzes da cidade estão embaçadas e não se pode ver além. Os feixes que atravessam a janela são abstratos e refletem uma moldura meio insalubre dentro do apartamento, como se eu precisasse de mais obscuridade. Canso daquela imagem superficial das vidas que não a minha e lembro do wisky ao lado da minha cama, ou será que é mais vantagem diminuir a pilha de obrigações que pairam em cima da escrivaninha? Penso se tenho alguma carta pra responder, ninguém me envia nada há meses. Minha caixa de e-mail está vazia, se não cheia de futilidades. Tenho alguém pra ligar? Teria, se você atendesse meus telefonemas. Não que eu já tenha tentado, mas algo me diz que é melhor esperar uma ligação sua, que eu sei que nunca virá. Meu consolo é tentar decifrá-lo todos os dias, por isso tem sido dias iguais, na fuga de saber algo meio vago e totalmente incerto. Os trabalhos podem esperar, vou deixá-los de lado, mais uma vez. A minha saída, já sei, não estar em cumprir obrigações, eu não tenho nenhuma se não em tentar me salvar. O wisky me espera como uma terapia ao final de cada dia. Dias iguais. Há tempos venho esperando alguma mudança, como algo parecido com uma reviravolta, mas única reviravolta é aqui dentro da minha cabeça. Feixes de luzes ultrapassando minha retina, cheiro de mofo misturado ao wisky, o vento frio fazendo um barulho meio mórbido por entre as aberturas da janela mal fechada e sinto novamente vontade de te ligar, mas tenho medo do que suas palavras querem me dizer.

sábado, 29 de outubro de 2011

Sobre você, mais uma vez

Estava deixando o tempo passar na esperança de um dia passar também a dor que venho trazendo nesses meses que se arrastaram feito um martírio que jamais achei que fosse capaz de suportar. Comecei a perceber que pouco mudou desde o nosso triste fim, nosso inexplicável e trágico desfecho. Venho trazendo você mesmo que sem querer, encaixando sua (in)existência em lugares e pessoas que hoje fazem parte da minha medíocre realidade, vivendo seu fantasma, te carregando como um parasita que me priva da liberdade de ser feliz de novo, de amar de novo, de recomeçar. Já tentei muitas vezes engrenar, iniciar do zero, mas me vejo sempre num marasmo completo. Penso com loucura que talvez seja impossível eu sentir novamente o mesmo como quando você estava presente, que eu nunca mais vá encontrar ninguém e que se eu deixei você se perder, é esse o preço a se pagar e quem sabe, nunca mais amar assim, do nosso jeito. Esse é o resumo do meu novo pesadelo, nem tão novo assim, o que é ainda mais assombroso. Já era pra ter sarado, já era pra ter caído em esquecimento toda essa história e penso mais uma vez que talvez eu não tenha mesmo mais saída. Tentei imaginar você de todas as maneiras que pudessem me ajudar nesse árduo desafio: seguir em frente. Então começo a lembrar. A última vez que nos vimos, a estranha frieza tão pouco característica de você, a sua insistência em não me olhar nos olhos. Repassei aquela cena diversas vezes na minha cabeça, tentando encontrar algum vestígio de que ainda possa haver um antigo você em algum lugar. Mas não houve sinais. Nada que me deixasse crer numa nova chance de recomeço. Não achei mais você em parte alguma naquele momento, embora até hoje seja perseguida nas ruas desertas, no sorvete da praça, em conversas sem rumo, no bar com os amigos, no meio dos versos das minhas músicas preferidas, nos fins de tarde em que costumávamos validar nossas angústias com um pouco de atenção. Percebe como você se tornou um tormento já quase insuportável? Não aguento mais me doer pela insatisfação que me dá sua falta e já me desagrada cansar os outros abordando assuntos que fazem sua menção. Nem pronunciar seu nome me dá mais prazer, pelo contrário, sinto uma timidez angustiada, como se fosse uma espécie de tabu. O que quero dizer é que, por mais que doa, por mais que cada célula do meu corpo lute contra minhas decisões desesperadas de te tirar da minha vida, ninguém me ouvirá mais falando de você, nem fazendo questão de saber a seu respeito, me lamuriando por alguém que nem mesmo existe mais.


"Que coisas são essas que me dizes sem dizer, escondidas atrás do que realmente quer dizer?
Tenho me confundido na tentativa de te decifrar, todos os dias. Mas confuso, perdido, sozinho, minha única certeza é que cada vez aumenta ainda mais a minha necessidade de ti. Torna-se desesperada, urgente. Eu já não sei o que faço. Não sinto nenhuma outra alegria além de ti.
Como pude cair assim nesse fundo de poço? Quando foi que me desequilibrei? Não quero me afogar: Quero beber tua água. Não te negues, minha sede é clara."

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Mar me quer


Em dias cinzentos como esses, não demora e logo surgem uma imensidão de carentes, milhões de almas solitárias no mundo. O ano está quase acabando, o que faz a gente se perguntar se o que foi feito realmente procede, se os últimos meses acrescentaram em algo no currículo. Se desperdiçou ou não tanto tempo, cabe a nós mesmos julgarmos. Se foi feito alguma ação de caridade, se deu mais atenção aos seus pais, se foi à igreja mais vezes, se dedicou mais tempo aos estudos, se deu mais chances pro amor pintar. Não se sabe, de fato, se foi feito tudo certo de acordo com o planejado. Tanta coisa que procuramos fazer de “mais” que é só aparecer um pequeno contraponto e pá, não sei onde estou, nem onde quero chegar.
Todo mundo quebra a cara um dia e como se não bastasse viver num mundo onde poucos sabem o que é ter esperança, a gente fica procurando motivos pra desistir. Ou foi porque algum idiota te deu um pé na bunda, ou porque a metade da laranja não apareceu ainda, sua viagem dos sonhos deu pra trás, seus amigos te abandonaram e você está só. Isso mesmo so-zi-nho, que significa por conta própria, responsável por decidir o que vai ser feito da sua vida, se quer ser feliz ou não.
Outro ponto crucial que não passa despercebido é essa mania que as pessoas têm de ficarem usando máscaras pra se proteger da realidade. Medo de fracassar, medo de decepcionar, medo estampado e carregado a tiracolo. O que ainda pode salvar é se passar por alguém diferente, pode até te tirar da árdua tarefa de se enfrentar todos os dias. O peso a ser carregado e suas consequentes sequelas, isso é que não tem salvamento. Até onde se sabe, não há mal nenhum em querer ser um pouco sozinho. Claro, pessoas perto da gente, sempre queremos e é um pouco necessário, até. Mas o que se pode fazer quando nem eles nem nós fazemos questão de nos interagir ou viver em comunidade, qualquer coisa assim? Só que é como eu disse, tem gente que prefere usar máscaras.
Que os dias cinzentos passem logo. Estão todos loucos por férias, por um pouco de paz. A indisposição termina quando o mês também acabar e então haverão dias de sol. As pessoas sairão de suas tocas, seus cubículos de mesmice e irão à procura de alguma praia deserta pra se deitar numa rede armada num alpendre de uma casinha simples, com o vento batendo, fazendo um som, a banda tocando uma música, num ritmo natural. Estaremos no maior Hawaii style, revezando uma água de coco com um drink a La pineapple. E o mar azul lá longe chamará para um encontro impossível de resistir. Dispensando o pra sempre, quem ainda dirá que é impossível ser feliz sozinho?

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Em prol do desamparo

Hoje, traçando a mesma trajetória de todos os dias, caminhando numa velha calçada em que já sei de cor todos os obstáculos, buracos, por onde desviar... Não pude evitar fazer algumas reflexões, à minha maneira de escapar um pouco do real sentido em estar aqui, agora. Na verdade, nada tem sido muito real ultimamente. Devo ter perdido a noção de tempo, espaço, essas coisas. Noto que essa dispersão vem me afastando não somente de mim – antes fosse. Porém desacredito da possibilidade de alguém ter a mínima preocupação comigo e entendo perfeitamente se quiserem me deixar. É escolha minha não acompanhar o ritmo das outras pessoas e se isso é um problema, não faço ideia da proporção de sua gravidade. Pra ser sincera, nem ligo. Já se tornou parte de mim esse caráter indiferente, essa pose de pouco caso e um jeito que não cria expectativa por nada nem ninguém. Venho me excluindo com a desculpa da tal fase passageira e bem, crise existencial, é assim que nomearam o que pode ser definido como dúvidas demais, problemas demais e estado emocional totalmente instável.  Como solução, penso numa dose de bebida ou uma paixão novinha em folha, mas são formas muito drásticas para se reerguer de um período tão abalado, que só fazem me levar a um caminho ainda mais próximo da perdição.  É como estar numa encruzilhada, detida à necessidade de escolher um dos lados, porque não vale mais mexer um músculo sequer em favor dessas pessoas anestesiadas, desse mundinho ingrato. E quem foi mesmo que inventou essas histórias cheias de happy ends pra iludir gente da mente pequena que nem mesmo sabe distinguir o ridículo que essas figuras fictícias trazem para suas vidas? Não há nenhum céu, nem pessoas boas, nem milagres. Nessas horas, normalmente, costumo pedir a Deus ajuda, mas me falta coragem até pra ter fé. Tenho vontade de dizer que “essa luta é minha” e “me deixa viajar no meu inferninho particular”, quem sabe um dia eu volto.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Nem desistir, nem tentar

E mais uma vez me encontro aqui, na mesma desolação de sempre. Consumida por atenções que não condizem com nada que eu mereça, com nada parecido ao que procuro como paz interior. O mundo tá girando feito roda gigante, sim, e em contraposição com Caio, eu tô dentro, mas tô pedindo pra descer. Eu disse me encontro? Quis dizer me perco. O tempo todo, de tudo, de todos. Perco, fujo, dilacero e dou um certo toque efusivo onde não era pra ter sentimento algum. Eu já quis ser tanto, já sonhei, já até acreditei no amor. Sabe, aquele esquema todo de tu me liga eu te ligo, nos vemos, saberemos as palavras certas pra dizer um ao outro, faremos promessas, combinaremos de assistir filme em domingos solitários, planos à longo prazo e no final das contas, terminaremos aquele dia no maior estilo,como se faz aquele pessoal que se ama. Mas, não. Digo pra qualquer um que pense na possibilidade de se aproximar um pouco mais: meu coração não é uma boa morada, dois passos pra trás, um pra frente, por favor.  Não estou disposta a sacrificar ninguém nessa árdua tarefa em tapar buracos, que de longe estão procurando ser fechados. Não estou colecionando promessas, pelo contrário, se tem algo assim à vista, fujo e não olho pra trás. Não quero nenhuma garantia pra quebrar a cara mais tarde. Não mais. Já acreditei muito e acho que já disse isso antes, mas não quero que restem dúvidas, à menos que seja de verdade, porque eu acredito. Sou ridícula o suficiente pra ainda acreditar em todas essas ba-na-li-da-des. Sei que tudo em mim engana, depois afasta. Deve ter algo de errado, podem ser as pessoas, o lugar, mas é muito. O problema tá aqui, não adianta fingir. Simples e gritante ao mesmo tempo, e sem mistério algum. Tenho mesmo essa mania besta de querer ser de alguém, embora essa palavra “alguém” seja algo infinitamente limitado, que se restringe, se guarda. E sou boba sim. Crio mil dificuldades como desculpa pra minha falta de discernimento com o resto do mundo como distúrbio de personalidade repulsiva, DNA estragado, conspiração com gente (qualquer tipo de gente). É muito pra alguém tão pequeno, eu sei. Ainda bem que ainda tenho fé, que ainda espero e que acredito? – Sim, lá no fundo eu acredito, que num dia qualquer, o que vivo esperando ser o melhor pra mim bata na minha porta e que psicologicamente ou astralmente, eu não arranje mais nenhum motivo pra não aceitar a felicidade.